Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

'Wolf Hall', romance histórico de Hilary Mantel, reconstrói reinado de Henrique VIII

Um dos reis mais despóticos da história da Inglaterra deu origem ao romance inglês mais festejado do século, que chega agora ao Brasil

Paulo Nogueira*, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2020 | 16h00

Henrique VIII é um dos vultos mais midiáticos da história universal – e foi um estrupício. Quase um feminicida em série, usou a decapitação e gambiarras jurídicas como forma de divórcio, casando-se seis vezes. Mais: fez rolar a cabeça de dois de seus chanceleres: Thomas More (o santo autor da Utopia, que não previu seu final distópico) e Thomas Cromwell.

Há justiça poética em dois fatos: a filha daquele Barba Azul, Elizabete I, foi a monarca mais poderosa da Inglaterra, e Thomas Cromwell é o protagonista da trilogia histórica que tornou Hilary Mantel a primeira mulher a ganhar duas vezes o Booker Prize, um dos prêmios mais prestigiosos do mundo. A ironia é ainda maior, já que Henrique VIII foi considerado o pior rei inglês pela Associação dos Escritores Históricos do Reino Unido. Mas é o que costumo dizer nas minhas aulas: o protagonista perfeito tem defeitos. 

Wolf Hall, o primeiro título da trilogia, foi lançado na Inglaterra em 2009, coincidindo com os 500 anos da entronização de Henrique VIII. O terceiro, O Espelho e a Luz, saiu em março deste, e foi o grande evento literário britânico de 2020, rebocando suas avantajadas 900 páginas para o número 1 do top do Reino Unido. Só nos primeiros três dias foram vendidos mais de 95 mil exemplares.

Convém não confundir Thomas Cromwell com Oliver Cromwell, líder da Revolução Puritana que em 1649 assinou a sentença de morte do rei Carlos I. Thomas (1485-1540) foi um pau para toda obra de Henrique VIII: escanteava as rainhas indesejadas,  baixava a bola das filhas inconvenientes  e bombeava adrenalina quando a rotina real ficava um porre. Foi Thomas que providenciou a anulação do casamento do rei e Catarina de Aragão, precipitando a ruptura com a igreja Católica e o advento do Anglicanismo, cuja lei ele redigiu. E continuou zelando para que, no leito régio, a fila andasse. E ainda empurrou Thomas More para o cadafalso. Figuraça, para o bem e para o mal. 

Ficção histórica (parece um oxímoro mas não é) é um gênero literário pujante – até no Brasil, cuja memória tende a não ir além dos últimos cinco minutos. A explicação mais óbvia para tal coqueluche é a míngua de fantasia e fabulação de grande parte da literatura contemporânea “de prestígio” – ou seja, o déficit de narratividade numa forma que é, antes de tudo, narrativa. Como? Ficção histórica é escapista? Ah, tá! Como Guerra e Paz e Memórias de Adriano, por exemplo? 

Aliás, a relação entre a prosa literária e realidade é forçosamente promiscua. Como assinalou Umberto Eco, “quando começamos a ler uma ficção, temos de assinar um acordo ficcional com o autor e estamos dispostos a aceitar, por exemplo, que lobo fala. Mas quando o lobo come Chapeuzinho Vermelho, pensamos que ela morreu (e essa convicção é vital para o extraordinário prazer que o leitor experimenta com a ressureição da menina). E achamos muito natural que Chapeuzinho se comporte como uma criança e sua mãe como uma adulta responsável. Por quê? Porque isso é o que acontece no mundo da nossa experiência, um mundo que chamamos de real.”

Na ficção histórica, a trama ocorre num contexto situado no passado – para a Historical Novel Society, “com eventos descritos há pelo menos 50 anos depois de ocorridos”. Por isso, os romances desse gênero já fomentaram identidades nacionais, como Iracema, de José de Alencar, ou O Último Moicano, do americano Fenimore Cooper. E aguçaram o interesse popular por determinados períodos ou estilos, como O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, fez pela Idade Média e o gótico. 

Inúmeros romances históricos são best sellers quase eternos – quem nunca salivou por O Conde de Montecristo ou Os Três Mosqueteiros? Sem falar nos de sangue azul literário, como A Cartuxa de Parma, de Stendhal; Os Noivos, de Alessandro Manzoni, ou José e Seus Irmãos, de Thomas Mann. E o filão continua pelos séculos 20 e 21 afora, de Faulkner (Absalom!) a George Saunders (Lincoln no Limbo), de Eco (O Nome da Rosa) a Vargas Llosa (A Guerra do Fim do Mundo), passando por Boris Pasternak (Doutor Jivago) e João Ubaldo Ribeiro (Viva o Povo Brasileiro).

De resto, o gênero tem a versatilidade de um coringa: há policiais históricos (com detetives no Medievo ou na Roma Antiga), ficção náutica e pirataria (de Stevenson e Patrick O’Brian), a “história alternativa” (como Complô Contra a América, de Philip Roth) e a metaficção histórica, que discute tanto as engrenagens da ficção quanto as da historiografia (como Dixie e Madison, de Thomas Pynchon, e O Memorial do Convento, de Saramago).

Wolf Hall foi eleito pelo Guardian o melhor romance inglês do século 21 até agora. Neste retrato em 3D sobre os Tudor, a efígie de Cromwell assome uma escala ciclópica – mas também jururu e até elegíaca. Thomas nunca se reduz ao gélido burocrata pintado por Hans Holbein. “Pode redigir um contrato, treinar um falcão, delinear um mapa, interromper uma briga de rua, mobiliar uma casa e comprar um júri. Trabalha o tempo todo, é o primeiro a se levantar e o último a ir para cama. Ganha e gasta dinheiro. Faz apostas sobre qualquer coisa”. 

Houve quem comparasse Cromwell aos chefes das polícias secretas soviética, de Dzerjinsky a Beria. Mas devagar com os anacronismos – precaução que Mantel tomou quase sempre (menos quando Cromwell diz sobre um cardeal: “Wolsey queima livros, mas não homens”, o que ecoa uma frase famosa do poeta alemão Heine, do século 19). É bom recordar que o léxico do século 16 era bem diferente: basta dizer que Shakespeare sozinho inventou dezenas de neologismos, hoje comuns. 

Só atrapalha um pouquinho a mania da autora de chamar os trocentos personagens apenas pelo primeiro nome – Henrique, Thomas, Ana, Jane. Mas, amavelmente, Mantel fornece o catálogo de todos eles, divididos em categorias: “A Casa Cromwell”, “A Família do Rei”, “A Casa Seymour”, etc.

Wolf Hall consegue ser ao mesmo tempo informativo (sobre eventos, costumes e o respectivo Zeitgeist) e formativo. É impossível ler as passagens de interrogatório e tortura – experimentando uma perturbadora simpatia pela glacial realpolitik do afável Cromwell – e ao mesmo tempo considerar a ficção histórica irrelevante nos dias de hoje. E é a proficiência técnica da Mantel  que lhe permite assobiar e chupar cana. Recrutando, inclusive, a chamada ironia dramática: estamos carecas de saber o que irá acontecer (a desgraça cósmica, o pescoço decepado), mas o protagonista ignora-o. E, como habitamos a consciência de Cromwell, também como ele não podemos deixar de acalentar esperanças – quem sabe o destino reconsidera? Quem sabe as Parcas amarelam? Que tal um deus ex machina na veia? E zás: roemos as unhas até as clavículas, compungidos e subjugados. O que mais se pode pedir? Bem, vêm aí o segundo e o terceiro volumes. Lambamos os beiços.

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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