Feng Li/Reuters
Feng Li/Reuters

Xi Jinping, o presidente chinês que já viveu entre os camponeses

Um perfil de um dos homens mais poderosos do mundo na atualidade

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 16h00

Ele nasce em Pequim, no ano de 1953, em “berço de ouro”, pertencente à aristocracia comunista dos “príncipes vermelhos”, designação dos filhos dos velhos companheiros de Mao Tsé-tung durante sua “Grande Marcha” (1934-35), a qual lhe abriria as portas do poder supremo quase vinte anos depois, em 1949.

Ser um “príncipe vermelho” é uma grande vantagem nos primeiros dias da China comunista. O país está cansado, dilapidado e ainda mais pobre, e os “príncipes” desfrutam de uma mercadoria rara: educação de alto nível. Isso vale particularmente para o jovem Xi Jinping, pois seu pai, Xi Zhongxum, foi vice-primeiro-ministro da China na década de 1950.

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Essa vantagem vai se tornando um inconveniente, à medida que Mao Tsé-tung envelhece e fica mais caprichoso, nocivo e imprevisível, como um imperador romano em decadência. Uma de suas descobertas é a Revolução Cultural, que busca despertar uma China que lhe parece um pouco letárgica. Mao desencadeia uma grande agitação, muitas vezes sangrenta, sempre arbitrária e cruel, com uma ideia de mandar os cidadãos para o campo, para lhes ensinar o que é o trabalho na terra, o sofrimento e a obediência.

Como a família Xi Zhongxum passou por essa provação? É difícil se esgueirar pelas sinuosas informações distribuídas pela China oficial. Parece que o pai de Xi Jinping, apesar de sua proximidade com Mao, foi prejudicado pela Revolução Cultural. Quanto ao jovem Xi Jinping, sabe-se que ele passou muitos anos de sua juventude longe de Pequim, no campo, na aldeia de Langjahe, província de Shanxi, norte da China. Essa região é chamada de “país das terras amarelas”, em referência à cor do loess que compõe os solos, com a fortuna suplementar de que o amarelo é a “cor imperial”, que Xi Jinping adula de bom grado. Vermelho e amarelo ao mesmo tempo, combinando os encantos do comunismo às delícias da China imperial.

O que dizer sobre esse período? A família Xi foi vítima da Revolução Cultural? As versões divergem. Hoje em dia, ninguém gosta de responder a essas perguntas. O certo é que Xi Jinping se orgulha de sua longa estadia entre os camponeses (sete anos, pelo que dizem). O casebre em que o “príncipe vermelho” passou a infância é objeto de culto.

A Revolução Cultural pode ter exilado Xi Jinping longe de Pequim, mas é necessário reconhecer que ele não se ressente: não perde uma única oportunidade de homenagear o gênio de Mao, o chamado “pensamento Mao Tsé-tung”. Quanto a seu pai, proclama seu amor por Xi Zhongxum com bastante frequência. Agradece por ter lhe ensinado a teoria comunista, mas também a filosofia de Confúcio, o velho sábio que louvava o papel da família e dos “pais”.

Ao esboçar um retrato de Xi, encontramos o mesmo problema: alguns salientam que Xi Jinping, quando entrou na política, era um jovem com modos artificiais, desconfortável, tímido, inseguro de sua vocação. E ainda se diz que foi esse aspecto estranho que lhe permitiu se esgueirar como uma enguia até o coração da máquina chinesa, sem que os rivais o assustassem. E sem assustar ninguém.

Outros oferecem imagens contrárias. Xi Jinping seria, desde cedo, um jovem ambicioso, prodigioso e decidido a galgar os degraus do poder até o topo. “Xi Jinping”, escreve Nicholas Bequelin (de Hong Kong), "adotou uma estratégia extremamente clara, assertiva e metódica para tomar o poder”. Essa estratégia teria sido guiada pelo pai, de volta à cúpula depois de um período de reabilitação. Ele dirige a grande província meridional de Guangdong. Em seguida, põe o filho Xi Jinping na Comissão Militar Central (CMC), o que lhe permite fazer bons contatos com nomes da alta hierarquia das forças armadas, um recurso valioso na corrida para o poder. 

Mas o jovem Xi Jinping quer romper com essa imagem de “príncipe vermelho”, que é uma vantagem no momento, mas pode se tornar uma desvantagem se quiser subir mais alto. Então, deixa Pequim pela segunda vez e obtém um cargo no interior (não muito longe de Pequim). Ele se torna secretário local do Partido Comunista Chinês. As fotos ainda circulam: Xi Jinping vestido como Mao, de azul, conversando com agricultores locais (como um deputado francês ou brasileiro quando visita seu berço eleitoral). Três anos depois, ele troca de província e desembarca em Fujian, sudeste da China, de frente para Taiwan.

Em 1997, entra para o Comitê Central, ou seja, o “núcleo duro” do partido. Mais uns passos nas províncias (Xangai, etc.) e lá está ele, de volta a Pequim. Em 2007, passa a compor o Comitê Permanente do Gabinete Político, o coração obscuro do poder. O Comitê conta com nove membros. Ele ocupa o sexto lugar. Paciência. Cinco anos se passam. E, então, no congresso de 2 de novembro de 2012, ele se torna o número 1. É isso. Bravo!

Será que vai endurecer ou suavizar o regime? Muitos o veem como um “reformador” (no espírito de Tiananmen, a revolta estudantil da Praça da Paz Celestial, em 1989). Estão enganados. Líder supremo, Xi anestesia a sociedade civil. Trava o partido. É verdade que o momento é perigoso. A “primavera árabe” leva o medo de contágio até a Ásia. E, na própria China, está em curso o caso de Bo Xilai, outro “príncipe vermelho”, secretário do partido na cidade de Chongqing flagrado no centro de um enorme escândalo que mistura lutas pelo poder, subornos e alguns assassinatos, entre eles o de um inglês misterioso. A economia chinesa está ficando sem energia.

Em 2012, o PIB cresce apenas 7,8%, uma miséria em relação aos anos anteriores. A tempestade é forte. Xi Jinping se segura. Em 2015, uma grande operação manda juristas e advogados para a cadeia. A China opta pela “segurança total”. Xi é cauteloso com o partido. E o traz de volta à sensatez. Como? Graças a uma grande campanha contra a corrupção. Os chamados “tigres” caem um depois do outro. A operação “mãos limpas” é um sucesso. O povo admira o Sr. Xi. Trabalhador incansável, Xi Jinping cuida das províncias. Todas as partes da China agora estão nas mãos das criaturas de Xi.

Xi Jinping certamente será reconduzido ao comando do país. Mas até quando? Teoricamente, não se pode ficar por mais de dois mandatos. Será que Xi Jinping vai se aposentar em cinco anos? Ninguém acredita. Quem sabe uma solução à la Putin? Ou aproveitar algumas brechas de certas passagens da lei fundamental? Enquanto isso, o atual congresso permite que Xi complete o já considerável trabalho que realizou.

Ele aperfeiçoa sua imagem. Uma das incógnitas do atual Congresso é saber se irá corroborar formalmente o conceito de “pensamento Xi Jinping”. Trata-se de uma honraria excepcional até agora concedida apenas a dois líderes chineses. O primeiro é, naturalmente, Mao Tse Tung. O segundo é o homem do “milagre econômico”, Deng Xiaoping. Depois do pensamento “Mao” e do pensamento “Deng”, falaremos em alguns dias do “pensamento Xi”? Também aí Xi Jiping manifesta a arte da “síntese” que demonstrou com tanta frequência na condução de sua carreira. Ele explicou que, no final das contas, não havia que escolher entre o modelo Mao ou o modelo Deng. O pensamento de Xi será, de fato, a síntese do pensamento “Mao” e do pensamento “Deng”. Modesto.

Sabe como ele está guiando o país agora? Não devemos contar com um abrandamento do regime. Em todos os discursos oficiais, bem como nos jornais e mesmo nas conversas cotidianas, ouve-se o mesmo estribilho: não cometa a tolice que levou à explosão da Rússia soviética em 1990. Lembre-se de que a Perestroika (transparência) pregada por Gorbachev liquidou a Rússia soviética em um piscar de olhos. Então, nunca “abaixe a guarda ideológica”. O partido continua sendo um senhor absoluto e impiedoso. A liberdade é uma coisa linda, mas deve ser protegida por algumas barreiras, se possível feitas de arame farpado.

Não espere uma ressurreição das liberdades. Exceto no sistema econômico. Esta é uma das descobertas da China comunista: ao contrário do que previram todos os filósofos e cientistas políticos, a remoção dos freios que paralisam a máquina econômica é perfeitamente compatível com um regime severo e quase policial. Aí está o sucesso do pensamento de Deng Xiaoping: a China encontrou uma maneira de conciliar esses dois sistemas aparentemente incompatíveis: uma liberdade extrema concedida à economia junto com um regime severo, implacável e quase policial imposto à sociedade civil e às pessoas. Este pode ser o “pensamento Xi Jinping”.

E, como sempre é necessário acrescentar um pouco de “sonho” ao “real”, uma obsessão ocupa as mentes de um bilhão de chineses. Desde que a China, através do comércio, das viagens e da internet, se abriu para o resto do mundo, os chineses têm um sonho: esse sonho é a América, sua opulência, sua criatividade, seus atores, seus cantores, seus modos de vida. Mas hoje, os chineses, dada a velocidade com que alcançaram os Estados Unidos, dizem que talvez seja hora de “mudar de sonho”. Em vez de sonhar com a América, não seria mais razoável “sonhar com a China”? Parece que esta é uma das ideias que, nas dobras de seu cérebro privilegiado, atormentam Xi Jinping. /Tradução de Renato Prelorentzou

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