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Lee Siegel
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Xingar a escuridão

Há quase dois anos, um grupo de manifestantes tomou um pequeno parque no coração de Manhattan dando origem ao movimento Occupy Wall Street. Durante os dois meses seguintes, suas manifestações abalaram o establishment e encheram de esperança aqueles que por muitos anos se sentiram privados de seus direitos, decepcionados, enganados, marginalizados. Agora, o Occupy Wall Street não é praticamente mais visto. Que aconteceu?

LEE SIEGEL,

30 de junho de 2013 | 02h16

Penso sempre nisso. Embora o movimento tenha contribuído para popularizar a expressão "um por cento", a minoria absurdamente reduzida de americanos detentores da maior parte da riqueza do país, esse 1% hoje detém mais poder que nunca. E em termos materiais ou de resultados, nada mudou.

Em parte, a razão do declínio relativamente rápido foi a excessiva amplitude das reivindicações. Observando o panorama socioeconômico como um todo, os manifestantes viam tanta coisa errada que não conseguiam distinguir prioridades.

Os movimentos da contracultura dos anos 1960, embora variados e ecléticos, tinham um elemento unificador: a oposição à Guerra do Vietnã. Em torno desse evento de extraordinária importância, eles conseguiram levantar suas outras causas: a distribuição desigual da riqueza, o combate à pobreza, o tratamento injusto dos negros e outras minorias, das mulheres, e assim por diante.

Na visão do público, essas várias causas eram a face macabra da Guerra do Vietnã. À medida que o conflito se tornara mais selvagem e inútil, à medida que eram cada vez mais numerosos os jovens da classe trabalhadora que voltavam para casa em caixões, foi crescendo o número de americanos que passaram a simpatizar com o movimento da contracultura.

Occupy Wall Street enfatizou a natureza oligárquica daquele 1%, mas sua indignação nunca produziu um programa claro. Não foi totalmente culpa do movimento. É mais fácil acabar uma guerra no exterior do que redistribuir a riqueza numa sociedade. Mas os manifestantes cometeram um terrível erro não se concentrando em um dos aspectos da dominação daquele 1% sobre a sociedade.

Poderiam ter escolhido o problema da saúde, o do salário-mínimo pateticamente baixo, a falta de moradia ao alcance de todos, o custo estratosférico da educação superior, a deterioração da educação nas escolas públicas. Poderiam ter escolhido um banco como alvo de sua investigação e de sua revolta. Poderiam ter insistido numa lei mais responsável sobre o fosso cada vez mais profundo entre as classes.

Ou ainda poderiam ter escolhido um político, um parlamentar ou um plutocrata que representasse as crescentes tendências oligárquicas do país. Não sou violento e tenho horror à violência política. Mas a cara de Donald Trump coberta de creme de torta daria no mínimo um cartaz coerente.

Em vez disso, Occupy Wall Street se revoltou contra a riqueza, abstratamente. Com isso, seus integrantes acabaram menos identificados com pessoas de princípios protestando contra a injustiça social que com adolescentes revoltados por não pegarem o carro do pai. Ou expressaram sua indignação pelos logros e a corrupção dos políticos em geral, exigindo o fim dessa situação sem destacar problemas específicos e concretos. Em vez de reivindicações, só apresentaram descontentamento.

Tampouco os ajudou o fato de, nesse vácuo de demandas, brotarem exaltações a Che e Mao. Para um movimento que no início lutou de maneira admirável e responsável para se tornar único, distanciando-se dos erros e da corrupção do comunismo e da anarquia, esse foi mais um golpe decisivo.

Aos poucos, as virtudes do Occupy tornaram-se desvantagens. Sua decisão de não ter líder ou porta-voz até impediu a imprensa de abalar a causa desacreditando um eventual representante. Mas a falta de um rosto que personificasse seus valores tornou difícil para o público identificar-se com os manifestantes.

E o poderoso e vívido espetáculo da ocupação de espaços públicos provocou uma forte reação contrária. Em vez de tomarem os parques, dos poucos espaços democráticos numa sociedade cada vez mais privatizada, eles deveriam ter se sentado nos saguões das instituições mais responsáveis pelas crescentes disparidades e iniquidades que se verificam na sociedade.

É verdade que, por causa do 11 de Setembro, os limites da repressão a elementos aparentemente desestabilizadores tornaram-se os mais tênues das últimas gerações. Não podemos culpar os manifestantes do movimento americano por não quererem correr o risco de ter os ossos quebrados. No entanto, podemos ouvir os veteranos dos protestos dos anos 1960 murmurando sua decepção pelo fato de esse movimento não ter nenhum mártir. Em vez disso, houve aparentemente muitos Edwards Snowden convencidos de que não teriam de arcar com as consequências de desafiar a lei a pretexto de humanizá-la.

O próprio nome, Occupy Wall Street, passou a funcionar contra seus criadores. "Wall Street" é uma abstração - como "ocupá-la"? E se isso fosse possível, que fazer depois com ela? "Occupy" foi também uma escolha infeliz em termos de linguagem. Ao longo da história, ocupantes foram os vilões que tiraram dos outros o que eles, como ocupantes, não tinham nenhum direito de possuir. E não foi aquele 1% que "ocupou" a sociedade?

Nos Estados Unidos, havia um jornal chamado The New York Herald Tribune cujos editores primeiro criavam as legendas e depois mandavam os fotógrafos fazer imagens que correspondessem a elas. Occupy Wall Street foi, ao contrário, uma imagem em busca de legenda. A legenda - ou seja, as palavras de ordem que poderiam ter calado fundo em diferentes pessoas dos mais variados estratos sociais - nunca saiu, e o movimento se desintegrou.

Enquanto isso, a imagem torna-se cada dia mais desoladora. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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