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Yes, he CAN!

Presença de Obama em reality inóspito o eleva à condição de herói no inferno do seu tempo

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 16h00

Posso ver Donald Trump bebendo sua própria urina, sorvendo-a com prazer como se fosse um Chardonnay - não um Rioja, claro -, mas Barack Obama, símbolo da dignidade pública? Jamais. 

Antes de jogar fora este artigo, enojado, saiba que me refiro à decisão do presidente Obama de aparecer no programa Running Wild, reality show de sobrevivência estrelado pelo famoso aventureiro e ex-soldado das Forças Especiais Britânicas Bear Grylls, série em que Grylls ficou conhecido por beber sua própria urina quando corria risco de morrer de sede no Outback australiano. Embora o episódio com Obama só vá ao ar no final do outono, o presidente já o gravou e divulgou fotos ao lado de Grylls no Parque Nacional dos Fiordes de Kenai, no Alasca.

O motivo de o presidente aparecer no programa foi sua recente visita ao Alasca, onde passou três dias visitando o Estado e o Exit Glacier, glaciar que, por causa do aquecimento global, perdeu em torno de um quilômetro e meio da sua extensão nos últimos 200 anos. “Este é um bom sinalizador do que estamos enfrentando tanto na questão da mudança climática como no tocante a qualquer outra coisa”, disse Obama. O principal objetivo da viagem do presidente ao 49º Estado dos EUA foi enfatizar o iminente apocalipse provocado pela mudança climática se os países do mundo não agirem juntos, e logo, para solucionarem a crise.

Obama está empenhado em resolver o problema, e sua viagem ao Alasca se insere na maneira como vem usando os 18 meses finais da sua presidência para estabelecer os problemas e causas que considera da maior importância. Mas o simbolismo da sua viagem foi muito além do aquecimento global, por mais urgente que ele seja. A participação do presidente no programa de Bear Grylls instantaneamente adquiriu o status de mito contemporâneo, uma espécie de herói num inferno particular do seu tempo. 

Ali estava Obama ao lado de Grylls no momento mais crucial da história americana de que eu me lembre. Em praticamente todos os aspectos da vida americana, o que era familiar começa a parecer estranho, e às vezes medonho. 

Quando o Air Force One, o avião presidencial, tocou o solo da cidade de Anchorage, a bolsa americana - como ocorreu com todas as bolsas de valores do mundo inteiro - estava em queda livre, despencando centenas de pontos graças à crise econômica na China e aos preços voláteis do petróleo, entre outras causas.

Mesmo com alguns indicativos apontando para um maior vigor da economia americana, economistas alertam para o início de uma nova era, em que a prosperidade e o predomínio econômico dos Estados Unidos começarão a esvanecer. Uma nova era na qual a China, com seus prolíficos bilhões infelizes e inquietos, talvez seja a nova potência dominante.

Policiais vêm sendo assassinados em cidades americanas. Há uma onda de violência sem precedentes, em parte uma reação homicida às recentes mortes pela polícia de indivíduos desarmados, na maioria negros.

O Estado Islâmico prossegue com sua devastação pelo Oriente Médio, seu espectro assombrando a Europa e os Estados Unidos também.

Mesmo com os governos europeus se sentindo incapazes de lidar com o enorme afluxo de imigrantes vindos do Oriente Médio e outros locais do mundo onde o sofrimento é imenso, políticos americanos se valem do medo das pessoas e defendem medidas severas contra os próprios imigrantes.

Alguns presságios de uma enorme mudança desconhecida também vêm se firmando cada vez mais: do número crescente de suicídios entre adolescentes e jovens alunos de faculdade à frequência cada vez maior de atos de violência contra mulheres e o peso insustentável da dívida estudantil.

Mesmo algumas características reconhecidas da cultura estão em constante mutação à medida que a ficção se funde com a autobiografia, os filmes baseados em fatos reais proliferam e comediantes transformam-se em estadistas prosaicos. Nada disso é ruim, de maneira nenhuma. Mas, num período de mudanças políticas e econômicas, as pessoas gostam de recorrer a rótulos culturais familiares, e atualmente eles são cada vez mais difíceis de encontrar.

E, acima de tudo, avulta a mudança mais sinistra: a total paralisia do establishment político. De ambos os lados, democrata e republicano, os únicos candidatos presidenciais que temos à escolha, até agora, são bufões ou incompetentes.

Podemos culpar os americanos porque eles, juntamente com Obama, apareceram no Running Wild de Grylls? Nesse programa, Grylls viaja com uma celebridade para uma ou outra região selvagem, e juntos enfrentam bravamente os elementos da natureza e tentam sobreviver. O que inclui praticar paraquedismo, rapel, pescar, caçar, fazer fogueiras, matar e comer escorpiões e cobras venenosas, recolher, cozinhar e consumir vermes, e assim por diante.

Em outras palavras, a experiência diária de Grylls, especialista na luta pela sobrevivência, uma figura extraordinária e ex-integrante das Forças Especiais, tornou-se agora, na cabeça de um número crescente de americanos, uma realidade horripilante, cada vez mais possível.

Bem, claro que estou exagerando. Mas, quando você analisa a classe política dos Estados Unidos, parece que todos nós estamos abandonados à nossa sorte para encontrar alimento e abrigo. À medida que envelheço, estou cada vez mais convencido das virtudes da maturidade, mas é estranho e desorientador perceber que, como sublinhou o The New York Times, o principal candidato republicano - Donald Trump - e todos os três candidatos democratas estarão com 70 anos ou quase quando da sua potencial investidura em janeiro de 2017. O mundo está rejuvenescendo num certo sentido, devido às rápidas mudanças impulsionadas pela ciência e a tecnologia, contudo os líderes americanos estão cada vez mais velhos.

Uma das mais famosas obras da literatura americana também tinha a ver com sobrevivência, To Build a Fire (Acender uma fogueira), conto escrito por Jack London. A história tem como cenário Yukon Trail, no Canadá, não muito distante do Alasca. Foi publicado em 1908, ano em que Ernest Shackleton partiu para explorar a Antártida e Robert Perry embarcou para o Polo Norte. Theodore Roosevelt, aventureiro e também um homem na luta pela sobrevivência, era presidente.

Mesmo no caso daqueles poucos americanos que não leram a história de London quando estavam na escola primária, seus temas estão arraigados em nossas consciências. São parte do espírito americano. Um homem sai com seu cachorro em direção ao Ártico para chegar a um acampamento onde sabe que seus amigos estão. Apesar dos seus esforços corajosos para se aquecer e fazer uma fogueira, ele congela e morre. O cão sobrevive. O homem usa todos os seus recursos e habilidades para derrotar a natureza. Ela vence. O ser humano morre. O animal não. Fim da história.

To Build a Fire transmite uma mensagem sombria, que leva à ponderação. Para vencer num universo darwiniano, você precisa de uma natureza animal. Quando esfria do lado de fora, necessita-se de um aventureiro, alguém que compartilhe sua natureza com os elementos que o cercam. Num mundo cão, o “homem-fera” assume posição de vantagem.

Desculpe mudar de assunto, mas a visita de Obama ao Alasca e sua aparição no programa de Bear Grylls foi talvez uma das lições finais que o presidente quis passar aos seus camaradas americanos. Sua mensagem: cuidado com os homens-fera. Cuidado com aqueles que saem da selva rosnando, bufando e afirmando que, como compartilham da natureza de todas as forças que hoje ameaçam a civilização, são os únicos que poderão nos salvar. Cuidado com o aventureiro que reduz tudo na vida a um conflito constante. 

A última vez que os EUA conviveram com uma figura política de postura messiânica foi em 2008, quando Sarah Palin irrompeu em cena. E veio nada menos do que do Alasca, afirmando que, como era alguém que convivia com a natureza, conseguiria subjugar as forças desestabilizadoras que ameaçavam o bem-estar dos americanos. O constante conflito entre liberais e conservadores, entre americanos e estrangeiros, entre tradição e modernidade foi o seu sustento.

E aí está o sucessor de Palin, Donald Trump, mais bárbaro, mais grosseiro e menos humano do que ela. Apesar de todos os seus ternos elegantes, ele poderia muito bem estar coberto de pele, ter garras e cauda. Embora seja um insulto às feras, ele é um homem-fera, sem a lealdade de um cão ou a dignidade inata de um ser humano. Trump não precisa aparecer no programa Running Wild. Ele passou toda a sua vida totalmente delirante correndo nos canyons da cidade de Nova York.

Obama, por outro lado, não vem da selva. Ele visita a selva do Alasca. Ele a civiliza. Olha feliz com ar de satisfação para Bear Grylls. Tira belas fotos dele próprio com um pau de selfie. Aparece ao lado de pessoas comuns do Alasca. Em todas as imagens, a selva do Alasca serve de pano de fundo. Mas Obama sorri como se para dizer que o frio do Ártico não é páreo para o generoso espírito humano. Enfrentando o frio avassalador e a noite avassaladora, a iluminação espiritual e intelectual é quase similar a acender uma fogueira. Espero que, independente do que o presidente fizer com Grylls, ele encontre uma abundante provisão de água para beber. Quanto a Trump: à sua saúde!

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

LEE SIEGEL, ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL NORTE-AMERICANO, É COLABORADOR DO JORNAL THE NEW YORK TIMES E DE REVISTAS COMO NEW YORKER E THE NATION. É TAMBÉM AUTOR DE VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO? (PANDA BOOKS)

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