Yes, nós temos nativos

Com ?Slumdog Millionaire?, Hollywood teria engolido a Índia, seu cinema e sua cultura milenar. Será?

Lilia Moritz Schwarcz*, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2009 | 00h15

Todo Oscar vale uma boa polêmica. Faz parte do show. O vestido antigo demais ou chamativo em excesso, a atriz que engordou ou o ator que envelheceu - e mal - fazem parte dos comentários comuns àqueles que se consideram socializados nesse ritual estrelado. Também integra o espetáculo apostar nos filmes favoritos ou criticar aqueles pelos quais não se tem especial predileção. E Quem Quer Ser um Milionário? não há de escapar desse destino. Contemplado com oito Oscars, entre eles os de melhor filme e direção, ele não sairá desse jogo ambivalente que leva ora à exaltação, ora à execração. Para alguns, o filme é apenas naïve, para outros uma love story improvável na periferia do sistema. Certos críticos apontaram o excesso de emoções, esperanças demais neste mundo em crise. Já outros apostaram na ideia de que esse seria um bom sinal, um alerta dos novos tempos. O maior embate, entretanto, talvez tenha se centrado naquilo que se chamou de "processo de exotização". Hollywood teria engolido a Índia e sua cultura milenar; conspurcado o que deveria ser mantido intocado e devidamente preservado. Por trás da revolta há um suposto de fundo: dos outros, dos "nativos", espera-se que permaneçam eternamente como são. Já de nós, ocidentais, imagina-se, até por definição, a mudança ou até a evolução - essa palavra tão castigada quanto acionada.Menos do que entrar no coro dos lastimosos, daqueles que pretendem preservar tradições e origens alheias, vale a pena pensar em quem anda canibalizando quem, dentro desse sistema que é Hollywood. Ambíguo por definição, nele não parecem existir filmes evidentemente conservadores ou liberais: o importante é captar o que certa comunidade de sentimentos imagina e quer assistir. E tudo leva a crer que o contexto está mais para a afirmação das diversidades. Sem cair na vala comum, que joga tudo nos tempos de Obama, não é preciso ser oráculo para perceber como se experimenta, a despeito da crise, a afirmação de certo otimismo e uma valorização, comportada, das diferenças. O que Hollywood faz é conferir a chancela; já a fronteira está em outro lugar. E esse lugar de mediação pode ser procurado não só no polo daqueles que produzem e são responsáveis pela "emissão", mas também no amplo espaço da "recepção". O outro lado não é apenas o do consumo passivo e vitimado, uma vez que por lá também se agencia e negocia a própria inserção. Estamos diante não somente de "nativos" que consomem, mas de populações marginalizadas que têm orquestrado as próprias sinfonias, ainda que em consonância com esse espectro chamado globalização; e para isso recorro a um pouco de antropologia. Estudos recentes do pós-colonialismo têm atentado para o que Marshall Sahlins resumiu com a expressão: "indigenização da modernidade". A cultura é entendida como um sistema de formas significativas de ação social e não como uma essência imune ao tempo, e por isso é de bom-tom prestar atenção à capacidade de agência dos povos indígenas dentro do sistema mundial. Conforme pondera o antropólogo norte-americano, culturas supostamente em vias de desaparecimento parecem, ao contrário, cada vez mais ativas: reinventando seu passado, subvertendo o próprio exotismo. Numa era fadada à monótona homogeneidade ditada por um capitalismo desterritorializado, elas estariam tomando a dianteira no sentido de oferecer, para elas mesmas, novas alternativas. Como mostra o filósofo indiano Homi Bhabha, há uma negociação complexa em andamento, um processo que afasta qualquer acesso imediato a uma noção de identidade ou de tradição puras. Não por acaso, novas etnicidades vão sendo produzidas no âmbito dessas arenas políticas e culturais, e cada vez mais termos como "autêntico" ou "original" transformam-se em falsos problemas. Diante do gatilho do capitalismo, novos passados podem apresentar-se de maneira mais gloriosa do que o presente, assim como a cultura reaparece como um marcador poderoso de identidades: rituais, línguas, parentescos, cosmologias... tudo entra nessa nova agência periférica. O que vem se afirmando, paradoxalmente, é um mundo marcado por diferenças, todas devidamente manipuladas. No Brasil, para chegarmos mais perto, a questão quilombola, herdeira do movimento negro, criou "as terras de preto" e a elas conferiu autenticidade histórica (uma origem mítica), política (antes de serem pretos seus proprietários são quilombolas, com uma identidade agora positiva) e cultural (jongo, cestaria e capoeira são os elementos selecionados para representar a "pureza local"). Movimentos indígenas recriam tradições, pesquisam costumes e se reinventam - tudo em nome do novo turismo étnico -, num processo em que a autenticidade vira objeto de disputa simbólica, um repertório possível de significados.Não se trata de denunciar a falsidade da operação: mais do que espaços de encenação artificiais, temos aí locais políticos de enunciação e de negociação. Por isso mesmo, categorias classificatórias básicas, como raça, gênero, geração, localidade geopolítica ou institucional, transformam-se em conceitos relativos, devidamente deslocados quando a situação permite ou pede.Hora de voltar ao nosso filme milionário. Não é o caso de defender ou atacar. Quem sabe importe mais anotar o acertado da hora e a maneira como ele ratifica universos de sensibilidade anteriores - mas dessa maneira reforçados. Índia está na moda, é certo. Mas mais do que isso, o que se assiste no filme, na música, nos atores, nos cenários, nas locações e na torcida que acompanhou a cerimônia (nos EUA e na Índia) é como "nossos nativos" parecem estar bastante conscientes das imagens que deles se fazem, assim como podem ativamente se contrapor ou endossar essas mesmas representações. Bollywood, mesmo sem pedir permissão, já fazia isso havia muito tempo, nós é que não havíamos notado. Na representação da diferença, ensejada em Quem Quer Ser um Milionário?, os sentidos da tradição e do exotismo são subvertidos ou mesmo reafirmados: a Índia se americanizou, mas a América tem se indianizado. Estamos diante de um processo muito mais complexo, que implica um constante armamento retórico e em negociação cultural, que é, sempre, política. Nada de dar voz aos nativos; eles já a tomaram e não parecem preocupados em pedir consentimento. Ou, então, resta o desabafo: "Não se fazem mais nativos como antigamente". *Professora titular do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e As Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (Companhia das Letras, 2008)DOMINGO, 22 DE FEVEREIROBollywood na cabeçaO filme Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, foi o grande vencedor do Oscar deste ano, levando oito estatuetas, incluindo a de melhor filme e melhor diretor. O Oscar de melhor atriz foi para Kate Winslet e o de melhor ator, para Sean Penn.

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