#YesSãoTodasAsMulheres

‘Trending Topic’ no Twitter desde o assassinato em Santa Bárbara, movimento atrai ambos os gêneros para refletir sobre como a misoginia impacta suas vidas

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

31 Maio 2014 | 14h20

 Quando os primeiros flashes urgentes sobre um “tiroteio” e “múltiplas vítimas” apareceram on-line no fim da noite do dia 23 de maio, mesmo sem informações precisas, não se pode condenar quem fez associação imediata a um agressor do sexo masculino. Em 98% dos casos de assassinatos em massa, como o recente massacre de seis estudantes da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, o autor é um homem.

O crime começou quanto Elliot Rodger, de 22 anos, estudante no Santa Barbara City College, esfaqueou e matou dois colegas que moravam com ele e um visitante. Em seguida, saiu no seu BMW disposto a matar quantas estudantes encontrasse por terem elas cometido o crime de rejeitá-lo, explicou Rodger num vídeo gravado horas antes. Sem conseguir arrombar um prédio onde morava um grupo de suas imaginadas inimigas, ele matou duas jovens na calçada, um rapaz numa deli e feriu mais treze. Dez minutos depois de começar a atirar, Rodger, perseguido pela polícia, se suicidou com um tiro na cabeça.

Em 2013, 30 assassinatos em massa fizeram 137 vítimas nos Estados Unidos. A média anual entre 2000 e 2008 era de 5 por ano. O FBI define como assassinato em massa a morte de quatro ou mais pessoas, fora o autor do crime. O aumento da média desse crime intimamente associado à cultura das armas de fogo é atribuído por estudiosos, em parte, à notoriedade adquirida pelos assassinos.

A cada nova chacina, abre-se mais uma temporada de celebridade e atenção sobre a biografia e os motivos do criminoso. Não é preciso assistir aos 6 minutos do vídeo de Rodger para saber que ele contava com a audiência póstuma. O vídeo do YouTube intitulado A Vingança de Elliot Rodger foi fartamente distribuído durante o sábado, 24, até ser retirado do ar pelo website, que pertence ao Google. Mas trechos continuam a ser exibidos em reportagens sobre o crime. São pouco mais de seis minutos de uma cantilena dissociada, megalomaníaca e intensamente misógina, gravados dentro do BMW. Rodger está banhado numa bela luz de fim de tarde e fala para a câmera de maneira articulada, como um canastrão num teste para conseguir papel num filme. Seu pai é o diretor de cinema britânico Peter Rodger, mais conhecido em Hollywood pela assistência de direção de Jogos Vorazes. 

Antes de sair para sua missão de vingança, Rodger enviou para mais de 20 pessoas, entre elas, seus pais, amigos e terapeutas, um manifesto de 141 páginas, espécie de autobiografia em que relata frustrações, rejeição e rancor, um texto marcado por afirmações como “Vocês, meninas, não sentem atração por mim, e vou punir todas por isso”.

Diante da documentação em vídeo e texto sobre os alegados motivos do assassino, logo começou um debate ao estilo “o ovo e a galinha”. O que veio primeiro? A doença mental do criminoso, uma figura notoriamente desajustada que frequentava terapeutas desde os 9 anos? Ou sua misoginia, celebrada na cultura popular? Elliot Rodger frequentava um fórum on-line de homens com dificuldades sexuais e era membro do PUAHate.com, website que ensina homens a enganar mulheres para fazer sexo com elas, ao estilo do personagem Frank Mackey de Tom Cruise no filme Magnólia. Horas depois do tiroteio, um membro do Facebook criou a página “Elliot Rodger é um herói”. 

Os que criticam os serviços de saúde mental nos Estados Unidos argumentam que destacar o ódio à mulher na motivação do assassino é um desserviço e uma politização de um problema de saúde pública. Mas vários comentaristas bateram na tecla da misoginia como indissociável do crime. De fato, uma coisa não exclui a outra. Ignorar uma cultura de música, cinema e videogames que deprecia a mulher, dizem, é ignorar seu poder na mão de doentes mentais. 

Desde o massacre de 27 pessoas, entre elas 20 crianças na escola elementar de Sandy Hook, em Connecticut, em dezembro de 2012, aumentaram as críticas à cobertura desses crimes na mídia. Se a imprensa já pratica autocensura ao cobrir outros crimes como estupro de menores e suicídio, seria o caso de estabelecer um código voluntário e negar ao criminoso a fama que é parte integral do assassinato em massa?

Não sabemos se o crime de Santa Barbara vai inspirar, como aconteceu no passado, os copycats, a imitação cometida por fãs de assassinos. Adam Lanza, autor do massacre de Sandy Hook, era obcecado por Columbine, a amplamente divulgada matança de 12 alunos numa escola secundária do Estado do Colorado, em abril de 1999.

Mas esse novo massacre da era da mídia social já inspirou outro grupo. Mulheres de todo o mundo, reunidas sob o hashtag #YesAllWomen, começaram a postar sua exortação a um basta global. “Porque o que desperta nos homens o maior medo de ir para a prisão é o mesmo que nos desperta o maior medo de caminhar numa calçada”, dizia um tweet. E não só as mulheres aderiram. Um internauta escreveu que começou a ler as postagens para proteger suas filhas e entendeu que precisava continuar a lê-las para educar seu filho. 

No manifesto do assassino havia ódio em várias direções, inclusive racismo. Se ele se declarasse contra um grupo étnico, seria imediatamente denunciado por uma ideologia inaceitável nos nossos tempos. Mas o discurso da violência contra a mulher, quando travestido de entretenimento ou liberdade de expressão, encontra uma tolerância cega para suas consequências. O extremismo misógino do assassino de Santa Bárbara é desconsiderado como uma exceção. Mas qualquer extremismo, seja o do terrorista islâmico ou o do autor de um massacre dos estudantes, começa com a distorção de uma queixa, que o agressor transforma em arma. 

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