Zagueiro marcado

Zagueiro marcado

O italiano Simone Farina disse ‘não’ à corrupção no futebol... e nunca mais pôde jogar

Jamil Chade, EM GENEBRA

08 Novembro 2014 | 16h00

Era outono de 2011 na Úmbria e a temporada do futebol italiano acabava de começar. Na respeitável segunda divisão do país, o modesto time de Gúbio, o Gubbio, não era notícia e nem sonhava em disputar um título. Na verdade, apenas lutava para sobreviver e conseguir pagar os salários de seus jogadores. 

Mas um estremecimento no clube logo se transformaria num terremoto no chamado “esporte das multidões”. Um de seus jogadores, Simone Farina, recebeu uma ligação de um ex-companheiro de time, Alessandro Zamperini, que pedia para que os dois fossem tomar um café. 

Praticamente nenhum torcedor conhecia Farina, um zagueiro de 29 anos com uma carreira ordinária e correta. E ele tampouco pensaria que esse encontro se tornaria um divisor de águas em sua carreira e na história recente do futebol europeu.

Farina estranhou quando viu o ex-colega chegar em um Porsche para buscá-lo no centro da cidade. A segunda divisão, como é fácil de se imaginar, não acompanha os salários das estrelas da primeira. 

Rapidamente, os dois tomaram seus lugares numa mesa e, para surpresa de Farina, Zamperini não perdeu tempo. Apresentou sem rodeios uma proposta indecente:  200 mil para que ele fizesse corpo mole para perder um jogo contra o Cesena, válido pela insignificante Coppa Italia, praticamente ignorada pela imprensa. “O valor era cinco vezes o meu salário anual”, recorda Farina. Além do dinheiro, Zamperini garantiria que outros resultados seriam manipulados para que, no final da temporada, o Gubbio não caísse para a terceira divisão. Com um resultado manipulado, o grupo iria apostar e certamente lucrar ao “acertar” o placar final. 

O problema é que Farina decidiu denunciar o esquema. “Minha resposta foi instantânea: não”, contou. O jogador ainda seria pressionado a dar o telefone do capitão do time, do treinador e até do presidente do clube. Mas também se recusou. 

Ao deixar o encontro, Zamperini fez um sinal a Farina de que aquela conversa era para ser mantida em sigilo. 

O zagueiro não procurou os cartolas, mas a polícia. Seu depoimento e suas informações levaram a uma onda de prisões em dezembro daquele ano. Foram mais de 20 jogadores e treinadores detidos e um esquema milionário, revelado. 

Estava provado: o futebol havia sido sequestrado por grupos criminosos e parte dos jogadores era de atores desse esquema - mesmo sabendo que milhares de crianças nas arquibancadas insistem em torcer para seus ídolos, cobrem paredes com suas fotos e choram diante das derrotas.

Simone Farina, pela primeira vez na vida, foi manchete de jornal. Herói, ele receberia todas as honrarias por mostrar que a ética ainda existia no futebol. O treinador Cesare Prandelli o convocou simbolicamente para a seleção italiana. A Fifa, no esforço de lustrar seu brasão, transformou o italiano em “embaixador”. 

Da Interpol, que justamente iniciava uma investigação sobre crimes financeiros no futebol, Farina ganhou uma medalha. “Ele é um defensor do futebol dentro e fora de campo”, declarou o secretário-geral da entidade, Ron Noble. “Mostrou coragem e precisa ser apresentado como um modelo da mesma dimensão de Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo.”

“Eu não me considerava um herói”, contou Farina, esta semana, ao Aliás. “Apenas estava fazendo o que qualquer um deveria fazer, que é ser honesto e não destruir o futebol.” Mas o destino que esperaria por Farina estava muito distante de qualquer heroísmo. Ao terminar a temporada, seu clube decidiu que não o queria mais. De forma inexplicável, nenhum outro time o aceitou. O motivo: ele havia quebrado uma regra fundamental do jogo, a de manter tudo que acontece nos bastidores e no vestiário em total sigilo. 

“Os meses seguintes às prisões foram muito difíceis”, conta o zagueiro. “A quem eu poderia pedir ajuda? Eu sentia que havia sido abandonado. Estava preocupado com a minha família, especialmente com meus dois filhos.”

Os aplausos, os elogios por ter dito não à corrupção e as condecorações recebidas da Fifa não passaram em muitos casos de teatro. Dezenas de pessoas no mundo do futebol estavam, de fato, preocupadas com que o “herói” fizesse escola e revelasse a podridão do esporte.

Da OCDE ao Parlamento Europeu, da Interpol aos tribunais de países da Europa, os alertas são de que o futebol se transformou em uma plataforma para a corrupção mundial, para lavagem de dinheiro - e também para o crime organizado manipular resultados. Farina, por mais insignificante que fosse em campo, era uma ameaça. 

Sem opções e tendo visto todos os times italianos lhe fecharem as portas, o jogador não teve outra opção a não ser aposentar-se. Por meses, frequentou de forma incômoda eventos da Fifa, enquanto a entidade tentava encontrar um time que o aceitasse. Sem sucesso.

Quem o resgataria meses depois seria o Aston Villa, tradicional time inglês. Mas não para jogar bola e sim para atuar como uma espécie de treinador moral para as categorias de base. Hoje, seu trabalho é o de conscientizar garotos de 5 a 12 anos no clube britânico. 

Seu gesto, porém, encerrou sua carreira em um esporte globalizado, com interesses comerciais que superam o PIB de vários países e uma administração baseada no coronelismo e troca de favores. Nesse esporte, Farina descobriu que não havia um lugar para aquele tipo de honestidade. Apesar de tudo, olhando para trás, Simone Farina não lamenta sua decisão. “Tudo isso significou o fim de minha carreira como jogador, mas nunca duvidei da minha atitude. Honestidade vale a pena".

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