Zangões teleguiados

Pequenos ou grandes, na forma de disco ou avião, drones devem substituir aviões tripulados nas guerras do futuro Troféu de guerra

RENÉ DECOL É SOCIÓLOGO, INTERESSADO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS, TECNOLOGIA, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h07

RENÉ DECOL

Conhecidos pelo nome oficial de Veículo Aéreo não Tripulado, os drones estão mudando a maneira como se lutam e pensam as guerras. Esses aviões controlados remotamente são cada vez mais usados pelos americanos para monitorar e atacar alvos no Afeganistão e Paquistão. Durante o governo Obama, o número de missões desse tipo aumentou dez vezes, calcula o site especializado Long War Journal.

Acredita-se que o Pentágono tenha mais de 7 mil desses curiosos artefatos e já pediu ao Congresso US $ 5 bilhões para ampliar a coleção em 2012. Drone, em inglês, é a palavra para o zumbido da abelha. E, de fato, abelhudos eles são: foi um deles que espionou com sucesso o complexo onde Bin Laden estava escondido. E, na Líbia, foi um drone que dispersou o comboio de Kadafi.

Na forma de disco voador ou miniatura de avião de combate, esses robôs devem substituir os aviões tripulados nas guerras do futuro. Jatos "tradicionais" são efetivos quando enfrentam alvos fixos, concentrações de tropas e armas pesadas. Mas são de pouca valia nas novas batalhas contra terroristas.

Muito leves, esses zangões voadores, como o Espião Sentinela RQ-170, abatido pelo Irã e exibido triunfalmente pela TV na semana passada, têm enorme autonomia de voo: podem sobrevoar o alvo por até 18 horas, esperando um momento oportuno para atacar, aumentando as chances de sucesso e diminuindo o número de vítimas civis.

Mas nem todos se sentem confortáveis com o uso desses zumbis eletrônicos. Críticos dizem que há aspectos legais e éticos que não foram discutidos. Em princípio, os drones podem tornar a guerra uma espécie de videogame, e, sem seres humanos diretamente envolvidos na cena de batalha, tornar mais banal a opção pelo conflito aberto. Relatório da ONU alerta para o fato de que o uso mais frequente desses dispositivos, controlados a milhares de quilômetros do campo de batalha, acirra a possibilidade de se criar uma "mentalidade PlayStation" em relação aos conflitos internacionais.

Até agora, ataques com drones tinham caráter extraoficial e eram conduzidos pela CIA. Ao pedir o brinquedinho de volta, Obama parece reconhecer o caráter oficial dessas missões, assumindo a responsabilidade como chefe supremo das Forças Armadas americanas. Ao mesmo tempo, concede aos iranianos que não se trata de uma ação legítima. Pelo menos oficialmente, EUA e Irã não estão em guerra (numa guerra, não se espera que o inimigo devolva armas capturadas).

Segundo Peter Singer, analista político do Brookings Institution (não confundir com o filósofo australiano de mesmo nome, especializado em ética), o uso de robôs será lugar comum nas guerras do futuro. Ele é autor de uma referência no assunto: Wired for War: The Robotics Revolution and Conflict in the 21st Century ("Plugados para a guerra: a revolução e o conflito da robótica no século 21").

O cenário mais provável do próximo embate no Oriente Médio, diz ele, não serão jatos riscando os céus, mas sim um conjunto de armas eletrônicas capazes de cegar a defesa aérea do inimigo, ao mesmo tempo derrubando as redes de eletricidade, internet e telefonia celular, além de interferência nas redes de rádio usadas por militares, polícia e bombeiros. Quem já passou por um blecaute sabe o caos que se segue. Enfim, as batalhas cibernéticas serão mais parecidas com o que lemos nos livros de ficção científica do que nos de história militar.

Israel ofereceu uma amostra num ataque contra a base de Al-Kibar, suposto depósito de armas nucleares da Síria, destruído em 2007: enquanto os aviões israelenses penetravam o espaço aéreo sírio, os radares sírios viam os alvos desaparecer das telas, para reaparecer minutos depois, às centenas. Controladores coçavam a cabeça, pensando qual o problema com os computadores; enquanto isso, os israelenses faziam seu trabalho.

Testados pela primeira vez nos conflitos da Bósnia, os drones têm sido usados crescentemente também por Israel. Em outubro, pelo menos cinco palestinos foram mortos num campo de treinamento em Gaza. A resposta veio na forma tradicional de foguetes disparados contra alvos israelenses. Também em outubro a Força Aérea americana reconheceu que um vírus havia infectado os computadores de uma base aérea situada no Estado de Nevada, de onde missões de drones são teleguiadas.

Outro exemplo de como serão as guerras foi o ataque do vírus informático Stuxnet, que supostamente atingiu as centrífugas nucleares iranianas, atrasando em alguns anos o programa nuclear do país. Ninguém reconhece a autoria do ataque e os iranianos negam que tenha acontecido: as armas podem ter mudado desde o tempo das cavernas, mas a guerra de propaganda continua igual.

Ao assumir que é o dono do brinquedo, Obama parece estar pela primeira vez dando um caráter oficial às guerras do futuro.

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