SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Zuiiim versus ziuuum

Transgênicos, os Aedes ditos ‘do bem’ voam para atrapalhar a vida dos seus irmãos ‘do mal’

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

14 Março 2015 | 16h00

– Escapou um aqui, ó!

Zé Maria olhou torto pro pernilongo, ensaiando um drible pela direita. Mas o maldito problema de coluna travou sua cintura. Sentou um tapão no bicho. 

– Tava pertinho! Veio de Rio Claro, é?

– Não, vem do laboratório. É o Aedes do bem, diz Guilherme, empunhando uma gaiola com uma revoada de pernilongos dentro. “Quer ver como não pica?”

– Tá brincando? Tem a perninha branca! Vai me morder!

Zé Maria Azevedo entrou no Posto de Saúde. Não queria remédio pra dengue, porque pernilongo não folga com ele. Queria era calar o papagaio da espinha com um flanax da vida. Guilherme Trivellato continuou com o que chama de engajamento público. Estamos no Cecap I, bairro periférico de Piracicaba, interior de São Paulo, onde a dengue já torturou. Seguimos pelo quarteirão com duas agentes comunitárias de saúde mais outra colega de Guilherme, também funcionária da Oxitec, empresa britânica que tem uma “fábrica” de insetos em Campinas. Por R$ 150 mil, a empresa fez parceria com a prefeitura da cidade para combater Aedes com Aedes, selvagem com transgênico, e assim reduzir a quantidade do principal transmissor da doença. A ideia é liberar os trans três vezes por semana, segunda, quarta e sexta, numa taxa de 340 mil por dia, durante seis meses e a partir de abril. No momento, tenta-se convencer a população de que o transgênico é um amor de pernilongo. Não parece fácil.

O engajamento começa pela gaiola. Made in Taiwan, ela mede 15 cm x 15 cm, é feita de filó e traz uma espécie de manga por onde o povo pode enfiar a mão. São cerca de mil pernilongos lá dentro. Alguns sentam na pele, mas nem tchum. Fica só a aflição.

– É tudo macho, avisa Guilherme, e macho de Aedes não pica.

Se nenhum macho de Aedes pica, selvagem ou trans, que picas tem a ver colocar a mão ali dentro? 

“A ideia é mostrar à população que aqueles animais lançados em levas no ambiente não farão mal à comunidade”, explica a bióloga Margareth Capurro, professora de parasitologia do Instituto de Biociências da USP. Ela participa de outro projeto da Oxitec, este em Juazeiro e Jacobina, que também usa Aedes transgênico no combate, por tabela, à doença. A diferença é que, além da USP, entra na empreitada baiana a ONG Moscamed, criada para combater a Ceratitis capitata, mosca-do-mediterrâneo. 

Tal qual os originais, os insetos geneticamente modificados não negam fogo. Disputam pau a pau com os selvagens a preferência das fêmeas, numa proporção de 55% para 45%. No entanto, despejados pelas ruas, estarão em maior número, algo como 100 para 5, o que deve aumentar sua chance de cópula. Da relação nascem filhotes fraquitos, que não vivem mais que quatro dias. Como o vírus precisa se hospedar no pernilongo por pelo menos dez dias para invadir suas glândulas salivares, o ciclo da infecção, a priori, estaria interrompido.


Os transgênicos têm vida curta porque cientistas quiseram assim. Seu DNA está bichado. Os ovos receberam, em 2002, um gene que multiplica uma proteína dentro da célula e prejudica seu funcionamento. Já um segundo gene produz um marcador fluorescente que permite avaliar a eficácia da liberação dos insetos numa terceira fase, a de monitoramento. Armadilhas capturam os ovos de Aedes e, na fase de pupa, é possível verificar ao microscópio uma luz escarlate no tórax daqueles marcados.

À luz do sol, no entanto, não dá para diferenciar o roots do engomadinho. Ambos são alvinegros. Sobrarão tapões, chineladas, loção, gel, aerossol e spray à base de DEET, repelentes elétricos, raquetes de fritar pernilongo, cravo, canela, reza brava e pulseiras de citronela. As argolas coloridas, aliás, viraram febre no interior do Estado de São Paulo, onde a dengue avança sem dó. Em Trabiju, são 14 casos a cada 100 habitantes. Em Rio Claro, cujos descendentes insetívoros Zé Maria tanto teme, a prefeitura declarou epidemia. Na sexta-feira, ela confirmou mais 782 casos, elevando o total para 3.113, o maior da região.

“O mosquito transgênico é uma técnica adicional”, enfatiza Margareth Capurro. “A população vai continuar tentando se defender, especialmente do Culex, que nada tem a ver com a dengue, mas enche a paciência com o zunido à noite.” E as prefeituras, espera-se, continuarão com o fumacê e vigiando focos de contaminação. A aposta, explicam ela e Guilherme Trivellato, é vencer pelo volume de pernilongos. 

– A minha pergunta é o que esse monte de pernilongo estranho significa para o ecossistema, cravou a aposentada Maria Tereza Matarazzo, resgatando o meio ambiente, ao contrário do marido, Legardeth, que bendisse a gaiola de mosquitos logo no portão. Maria Tereza não tirou a dúvida do nada. Tinha visto uma reportagem no Jornal de Piracicaba, publicada na quinta-feira, que mencionava a intenção do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) de acionar o Ministério Público para que fosse suspensa ou retardada a liberação do uso dos mosquitos transgênicos na cidade. O órgão agendou para o dia 24 uma audiência pública sobre o assunto, possivelmente na Câmara dos Vereadores. Zé Maria foi convidado para a audiência. Não o Azevedo, mas o Gusman Ferraz, professor da Ufscar e ex-membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que em 2014 emitiu parecer favorável à liberação comercial do OX513A. O comitê, formado por 27 membros, entendeu em sua maioria que o mosquito transgênico atendeu às normas e à legislação pertinente no que tange à biossegurança do meio ambiente, agricultura, saúde humana e animal. Mas ainda falta o aval da Anvisa para o negócio ir adiante com todas as chancelas.

“Nunca vi tantas irregularidades num processo na CTNBio e tamanha rapidez para aprová-lo”, afirma Gusman Ferraz. “Faltam estudos para saber se a liberação do transgênico pode recrudescer a doença, já que outro Aedes, o albopictus, também vetor da dengue e da chikungunya, poderia ocupar o nicho do aegypti”, diz. O albopictus vive preferencialmente em regiões rurais. Além disso, continua o agroecologista, os estudos feitos até então em Jacobina e Juazeiro envolvem uma área semiárida, enquanto Piracicaba está envolta numa região úmida. Na Flórida o processo teria empacado porque, diz ele, os americanos são mais críticos que a gente. “Não vou submeter a população, que já sofre com a dengue, à possibilidade de risco maior à saúde.”

“Não é briga de gangue entre os mosquitos”, afirma Guilherme Trivellato, que já teve dengue quando vivia em São Paulo. “O albopctus não entra no espaço porque não quer”, insiste. “Quando se erradicou o Aedes aegypt nos anos 1950 por causa do uso de DDT, não houve invasão de outras espécies”, reitera Margareth. Ela também pergunta que predador precisa do Aedes para sobreviver. “Nenhum”, responde ela mesma. “Que animal vive na caixa d'água?”

Certamente não é um mutante, como uma voz feminina reproduziu anonimamente nas redes sociais. Diz ela ter ouvido do secretário de Saúde de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, que um vírus mutante da dengue estaria a caminho, que o mosquito só pica a parte de baixo do corpo e gosta de água suja e salgada. David Uip, infectologista e secretário estadual de Saúde, teve de vir a público para desmentir o boato alarmista de cabo a rabo. 

Pesquisador do Instituto Butantã, Isaías Raw quis se pronunciar. Começa se autodefinindo: “Eu digo o que penso, e o que penso eu digo”. Então diz: “A dengue é um grande negócio”. Entende que o mosquito transgênico é uma ideia boa, “mas até implantar isso muita gente vai ficar doente, hospitais ficarão cheios e infelizmente o tratamento é puramente sintomático”. Seu foco é a vacina, e obviamente a vacina desenvolvida pelo instituto, que ele vaticina estar pronta para análise de eficácia até o fim do ano. “Ela não tem fins lucrativos, é só uma dose e tem custo mais baixo.” Raw ainda lembra que tem 88 anos. E que nem ele, nem eu, nem ninguém tem tempo a perder. “Não se pode ficar capacho das grandes empresas, tem de desenvolver, pesquisar e progredir”, finaliza, com a veemência de seu DNA.

Com interesse, Valter Quintino, que trabalhou anos como porteiro de metalúrgica, observava o porta a porta da Oxitec. Me mostrou o quintal limpo. “Acabei agora de jogar fora a água da cachorra.” A gaiola apinhada de mosquitos atravessou a rua. “Esse é o Aedes do bem”, repetiu Guilherme. “Quer conferir como não pica?”. Valter olhou pra própria mão. “Tá suja de terra”, desconversou. E gritou pra dentro: 

– Ô, Zenaide, faz o favor, põe a mão aqui!

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