Eloy Alonso/Reuters
Eloy Alonso/Reuters

Zygmunt Bauman sustenta que a nostalgia é incurável na modernidade

'Retrotopia', inédito no Brasil e lançado postumamente, fala sobre o desejo atual de voltar ao passado

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

10 Fevereiro 2018 | 16h00

Retrotopia, livro póstumo do sociólogo e pensador polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), discute o desejo da volta ao passado – a um passado idealizado, que não é o passado “como ele genuinamente era” –, visto como solução para um mundo melhor, pois, como afirma Rutger Bregman, no livro Utopia para Realistas, citado por Bauman, “não logramos imaginar um mundo melhor do que aquele que alcançamos” e, de fato, as pesquisas têm demonstrado que esta geração vislumbra para a geração posterior uma situação pior do que a sua. 

Diante desse cenário sombrio, a nostalgia se torna a “condição moderna incurável” deste século, mas seu perigo está em revivificar desejos nacionais e nacionalistas que se empenham “na fabricação de mitos antimodernos de história, por meio de um retorno a símbolos e mitos nacionais e, ocasionalmente, com teorias intercambiáveis da conspiração”.

A retrotopia é o desejo do passado estável e não de um futuro incerto, ou seja, ela não busca a terra bem-aventurada, a Utopia, quer, isso sim, o retorno a uma terra que já se conhece. Ela é também a negação do progresso, que pressagia a ameaça de perdas e a degradação social. Sem a esperança do progresso, “a herança que nos consola é a tradição”, diz David Lowenthal, citado por Bauman. Não sem razão, atualmente têm ganhado destaque os discursos políticos que defendem a volta aos valores do passado.

Nesse retorno ao túnel do tempo, afirma o sociólogo polonês, ressuscitamos o Leviatã, de Thomas Hobbes, que acreditamos não ter cumprido sua função de “subjugar a crueldade inata dos homens, tornando assim a vida humana entre humanos suportável”. Em seu livro, Bauman cita o historiador Timothy Snyder, o qual sugere, reavaliando a experiência terrível e perniciosa do Holocausto, que se os Estados fossem destruídos e as instituições locais corrompidas, “poucos dentre nós se comportariam bem. Há poucas razões para pensar que somos do ponto de vista ético superiores aos europeus dos anos 1930 e 1940 ou menos vulneráveis ao tipo de ideia que Hitler tão auspiciosamente promulgou e pôs em prática”. 

Hoje, não temos um Leviatã “todo-poderoso”, mas pequenos Leviatãs, “numerosos até demais”, que fracassam no desempenho de suas tarefas e que não conquistam a confiança das pessoas, as quais respondem a essa impotência do Estado com atos de “autodestruição” ou, sem perspectiva e sem dignidade, atacam outras aleatoriamente, afirma Bauman. Basta pensarmos nos ataques terroristas, que não escolhem vítimas: qualquer um em qualquer hora e lugar pode ser alvo de “explosões vingativas de ódio”.

Enquanto aguardamos um Leviatã eficiente e os Estados se tornam cada vez mais “vizinhanças amplas”, resultantes do processo de globalização, a aspiração por uma sociedade tribal ganha força. Diz o filósofo político norte-americano Michael Walzer, com quem Bauman dialoga, que se os Estados se tornarem “grandes vizinhanças, é provável que as vizinhanças se tornem pequenos Estados. Seus membros irão se organizar para defender as políticas e a cultura locais contra estranhos”. Essas tribos se valerão de suas diferenças para defender uma suposta superioridade sobre outras tribos e assim farão ressurgir a fronteira entre “nós” e “eles”.

Outra questão que Bauman traz à tona em seu livro, que o torna muito atual, é a da desigualdade que ressurge impelida pelo conceito em voga de “privação relativa”, o qual não advém da comparação com normas sociais absolutas e universais, mas de um paralelo com as condições existentes em determinados locais e circunstâncias. Desse modo, ricos podem viver em condição de “privação relativa” em relação à sua classe social. Ao mesmo tempo, pode-se considerar normal a situação de pobreza de um indivíduo que vive em determinada região do mundo menos próspera.

Por fim, Bauman analisa o desejo que se tem de voltar ao útero, de voltar a si próprio. Com telefones celulares, tablets, laptops etc., já vivemos isolados, separados e em desconexão física com outros à nossa volta. Voltar ao útero seria buscar a “autossatisfação” sem depender do outro; o útero seria uma espécie de Cocanha, local mítico em que não é preciso trabalhar e onde se tem tudo em abundância. 

Ainda que, como lembra Bauman, seja uma contradição o ser humano sem a companhia humana, o útero, esse “lugar solitário – mas também um lugar seguro, não questionado e não estorvado –, sem competidores rivalizando para diminuir a estatura do seu único residente ou roubar seu bônus e privilégios”, é o ideal contemporâneo.

A tese de Walter Benjamin de que “o rosto do anjo da história está voltado para o passado” e “a tempestade é o que nós chamamos de progresso”, com a qual dialoga Zygmunt Bauman, parece efetivamente anunciar a noção de retrotopia.

*Dirce Waltrick do Amarante traduziu e organizou, entre outros, 'Finnegans Wake (Por um Fio)', de James Joyce (ed. Iluminuras) 

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