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George Martin, o inventor da relevância

Algumas bandas fazem história sem alterar seu curso; outras, criam revoluções. A dos Beatles só foi possível graças a George Martin

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

13 Março 2016 | 03h00

Especula-se ainda se foi posicionamento dos astros, profecia pagã ou destino bíblico o que fez, no meio de uma tarde de 1962, reunirem-se em um mesmo estúdio de Londres John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e George Martin. As peças nunca haviam sido tão bem dispostas em um tabuleiro desde que Sister Rosetta Tharpe, Goree Carter ou Jimmy Preston começaram a falar de rock and roll pelo meio dos anos de 1940. Se um dos quatro primeiros ingleses faltasse, a estratégia dos deuses estaria desmontada e sabe-se lá que música sairia de suas mãos. Mas, se o último não existisse, não haveria revolução.

Ao enterrar mais um beatle, o mundo vive a angústia de se deparar com a sensação de que, apesar da onipresença adquirida álbum após álbum, seus heróis também são mortais. John Lennon se foi cedo, aos 40 anos, assassinado em 1980 com cinco tiros por um fanático religioso em frente ao prédio em que morava com Yoko Ono, em Nova York. Vinte e um anos depois, George Harrison, aos 57, partiu vítima de um tumor no cérebro. George Martin se vai no silêncio da idade dos 90 anos que dispensa a morte de satisfações. Ele simplesmente morreu, conforme noticiaram os jornais sem mais detalhes, talvez pelo fato de que nem os jornalistas acreditassem muito na própria notícia.

George Martin, o único produtor da música pop a atingir a condição da tal imortalidade, foi o mago da história. Sem ele, os Beatles teriam a importância de um Doors, de um Eagles ou de um Rolling Stones. As pedras podem voar sobre aqueles que ousarem evocar ídolos santificados em vão, mas a pergunta que deve ser feita no tira-teima das vaidades é apenas uma: afinal, o que determinada banda fez para mudar a história? Quais as transformações que a música sofreu no momento em que ela passou pelo planeta Terra? Ímpetos revolucionários não são pré-requisitos para a existência dos titãs. Os Stones ergueram um monumento inquestionável com tudo o que ainda fazem e escreveram páginas de história por mil motivos, mas não operaram nenhuma transformação do rock and roll. O que eles faziam em 1962 é exatamente o que fazem em 2016. Uma banda de blues que se tornou uma senhora banda de rock. Ponto. Os alquimistas são mais raros. Surgem a cada 300 anos com a crueldade discretamente embutida em sua genialidade avassaladora: o mundo será um antes e outro depois de suas existências.

Mais do que tornar os sonhos possíveis, George Martin os potencializava e conduzia a música dos Beatles para o território inexplorado.

Ele, primeiro, ouviu e não gostou. “Que lixo é esse?”, pensou enquanto escutava os garotos cantarem Besame Mucho na audição do tudo ou nada de 1962. Depois, sentiu que havia carisma e uma vontade de encontrar Deus nos detalhes. Martin, um pianista que sonhava em ser Rachmaninoff II, andava por aqueles corredores da EMI dando sentido pop a artistas como a cantora Cilla Black e o grupo Gerry and The Pacemakers. Nada que elevasse sua adrenalina a ponto de perder as noites de sono ao lado da bela Judy, a secretária da gravadora que passaria a vida inteira a seu lado. Era assim até o dia em que os Beatles entraram por aquela porta.

Alto, elegante, gentil, suave, George Martin era, antes, um psicólogo. Só se sentiu mais à vontade para agir no momento em que entendeu melhor a geopolítica daquele mundo disputado por dois exércitos que traziam nos olhos uma espécie de prazo de validade: John Lennon e Paul McCartney. O franco e o diplomático; o ácido e o suave; a explosão e a contemplação; o grito e o falsete; o rock e a canção; o sexo e o amor. Seriam complementares até o dia em que uma das partes atingisse o seu ponto de ebulição. George Martin sentiu que, do primeiro, sairiam as melhores letras enquanto que, do segundo, as mais belas músicas. E só o tempo faria Ringo Starr e George Harrison se tornarem visíveis.

Martin nunca falou sobre isso, mas é muito provável que tenha desenvolvido uma afeição maior por Paul McCartney. Os dois eram fluentes no mesmo idioma, o da aproximação da canção pop dos arranjos sinfônicos e camerísticos, e só não assinaram uma música em parceria para não deflagrarem a terceira guerra mundial com o exército interno de John Lennon. Além de saber seu lugar na história, Martin era um cavalheiro: se havia uma cumplicidade maior com Paul, ele a exerceria discretamente.

Assim foi quando Paul chegou ao estúdio com a história de que havia sonhado com Yesterday. Os outros músicos resistiram em incluí-la no álbum Help, de 1965. O resultado não parecia estar em sintonia com o resto do material. Martin, ao contrário, começou a trabalhar como um garçom despretensioso servindo as ideias de seu cliente. Escreveu o arranjo de cordas em uma tarde apenas para que elas valorizassem o que dizia a canção. “É algo muito simples, até ingênuo. Mas se fosse de outra maneira, eu poderia destruir o que Paul havia criado”, disse Martin no documentário Produced By George Martin, de 1996.

Eleanor Rigby veio parecida. Paul chegou com a ideia das cordas e o produtor colocou-se imediatamente a pensar. Para valorizar a pulsação destacada, sugerida na base de Paul, sua inspiração foi ao cinema, penetrou no filme Psicose, de Alfred Hitchcock, e chegou à cena de suspense do chuveiro, quando os violinos de Bernard Hermann parecem cortar mais a carne da personagem de Janet Leigh do que a faca do assassino. “Quis fazer os mesmos toques, curtos e agudos. Essa música é, então, metade de Paul e metade de Bernard Hermann”, disse, com sua humildade desconcertante.

Muito rapidamente, as barreiras vão sendo colocadas abaixo. As ideias dos Beatles, traduzidas por Martin, entram no templo sagrado da música clássica, seguem para as experimentações lisérgicas, adiantam em mais de dez anos as distorções que abririam novas ramificações no rock e apontam para o céu quando lhe perguntam qual é o limite. Depois de fazer tudo acontecer em sentido horário, Martin grava Rain com sons ao contrário e abre um novo portal. Inebriados, os Beatles desistem dos palcos para passar a maior parte de sua existência no estúdio. Algo só possível graças ao homem que os fazia imortais a cada grito de “gravando!”.

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