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Como a direita se apropriou da obra de George Orwell

Orwell suspeitava que seu derradeiro romance seria explorado como arma de propaganda pela direita, que o reduziria a um panfletão antissoviético, antistalinista

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 16h00

“Orwelliano” não chega a ser uma palavra bom-bril, mas já demonstrou ter mil e uma utilidades; desde designar qualquer criação do escritor britânico George Orwell a adjetivar uma porção de ideias, figuras e situações consagradas em sua obra (mais especificamente no romance distópico 1984), a inspirar um reality show e a desqualificar uma discussão. 

O senador Josh Hawley, republicano pelo Missouri e destacado capacho de Trump, encampou a tese de que a vitória eleitoral de Joe Biden fora fraudada, com tamanha verve e desfaçatez, que a editora com a qual transava a publicação de um livro desfez o combinado, antes mesmo do assalto ao Capitólio insuflado pela tese trumpista. Foi o que bastou para o senador proclamar-se vítima de “um assalto à Primeira Emenda da Constituição”, acusar a editora de ter sido “pressionada pelos comunistas”—com este adendo: “mais orwelliano, impossível”. 

Desde quando uma simples decisão editorial é uma atitude autoritária? Até mais orwelliana que a fraude eleitoral imputada à vitória de Biden foi a desculpa de que, ao tentar suprimir votos de negros e latinos em diversos estados, os republicanos estavam “zelando pela integridade do eleitor”. 

No dia seguinte à suspensão da conta de Trump no Twitter, Hawley soltou os cães, na mesma rede social: “A liberdade de expressão não existe mais na América. Estamos vivendo no 1984 de Orwell”. Seus próprios colegas de partido julgaram a bronca, com acusações gratuitas e embasadas em falsidades, uma reação tipicamente... orwelliana. 

É em Oceânia, o estado totalitário de 1984, não na América, que mentira é verdade, verdade é mentira, guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força, conforme impostas por seu Ministério da Verdade. Trump bem que tentou diminuir essas diferenças ao longo de quatro anos, com suas fanfarronadas narcisistas em palanques e diante das câmeras e suas torrentes diárias de fake news (ou “fatos alternativos”, para usar o orwellianíssimo eufemismo cunhado pela conselheira do ex-presidente, Kellyanne Conway). Envenenou o eleitorado, mas não o suficiente para assegurar um segundo mandato

O máximo que o mimimi de Hawley logrou foi alçar 1984 ao topo da lista dos mais vendidos da Amazon. O romance que, entre outros orwellianismos, consagrou a figura de Big Brother, o onipresente mas incorpóreo tirano de Oceânia, é visto, faz tempo, como um barômetro das aflições sociais e políticas por que passam os EUA. Suas vendas cresceram à beça em 2013, depois que Edward Snowden expôs as engrenagens da espionagem americana, e mais de 9.000% após a posse de Trump. 

Orwell suspeitava que seu derradeiro romance seria explorado como arma de propaganda pela direita, que o reduziria a um panfletão antissoviético, antistalinista. Foi. Em 1950, quando 1984 chegou às livrarias americanas, a revista Life, alinhada com o Partido Republicano, então no poder, não só o  promoveu, com inusitado entusiasmo, como vislumbrou em sua narrativa uma denúncia do “totalitarismo intrínseco” do New Deal de Roosevelt, dedução que qualquer pessoa intelectualmente honesta só não repudiaria com mais vigor que o próprio Orwell.  

A primeira tramoia da direita com um livro do autor foi a compra secreta dos direitos da novela A Revolução dos Bichos pelo agente da CIA Howard Hunt. Embora tencionasse extrair dele um ambicioso filme de animação, produziu apenas mais uma peça de propaganda anticomunista. Hunt, que na década de 1970 seria figura chave no escândalo Watergate, adulterou o final da história, acrescentando-lhe um apócrifo final feliz. A CIA, igualmente patrocinadora da primeira adaptação de 1984 ao cinema, dirigida por Michael Anderson em 1956, também alterou o desfecho da trama, razão pela qual a viúva do escritor, Sonia Orwell, tirou o filme de cartaz.

O primeiro registro da expressão “orwelliano” data de 1950 e uma assinatura ilustre: Mary McCarthy.  A grande ensaista e escritora americana não escrevia sobre política, não se referia a uma ditadura nem a nenhuma personalidade maléfica; apenas descrevia uma revista de moda inteiramente voltada para si própria, para sua autopromoção. 

A partir dali, o adjetivo passou a acompanhar os mais disparatados substantivos, até artefatos nucleares e utensílios elétricos de cozinha. Orwell, que escreveu uma reflexão seminal sobre a degradação da língua inglesa não só pela política mas sobretudo por ela, teria se espantado com essa versatilidade polissêmica. 

No mar de ensaios sobre 1984 até hoje produzidos, destaco, pelo inusitado e pela utilidade, Ministry of Truth: A Biography of George Orwell’s 1984, de Dorian Lynskey, editado pela Picador. Isto mesmo: uma biografia do romance.

Lynsley investigou a fundo as suas origens. Localizou-as, primeiramente, nos seis meses que Orwell lutou na Guerra Civil Espanhola, em 1937, integrado à milícia trotsquistas. Foi lá, na Catalunha, fonte de Lutando na Espanha, que os pilares do tenebroso mundo do Big Brother, o desprezo à verdade objetiva, a reformulação do passado, a corrupção ideológica e a rotineira supressão da discordância encaixaram-se inexoravelmente.

O estímulo determinante partiu da Conferência de Teerã, em 1943. Ao ouvir as notícias que lhe chegavam da cimeira com Roosevelt, Churchill e Stalin, Orwell deu de barato a derrota de Hitler e imaginou o planeta rateado entre aqueles três impérios—e sentiu um calafrio. 

Nunca demorou tanto tempo—cinco anos—para escrever um livro, entregue ao editor em dezembro de 1948 e publicado seis meses depois. Traumas pessoais e o avanço da tuberculose, que afinal o mataria em janeiro de 1950, por pouco não o impediram de concluir sua magnum opus, cuja perda seria uma desgraça indiscutivelmente orwelliana. 

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