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Conto inédito de Tolkien e biografia inauguram reedição da obra

'A Queda de Gondolin', cuja versão integral ficou inédita por mais de 100 anos, chega aos leitores brasileiros

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2018 | 16h00

Mais de quatro décadas após a morte de John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), sua mitologia segue como um dos maiores fenômenos culturais dos séculos 20 e 21. Isso explica por que, mesmo depois de seis filmes assinados por Peter Jackson e algumas animações obscuras baseadas em seus livros, sua obra completa esteja sendo reeditada no Brasil pela HarperCollins, e continue inspirando releituras em outras mídias, como o game Sombras de Mordor (2014), a série O Senhor dos Anéis, em produção pela Amazon, e a cinebiografia de Tolkien pelo diretor cipriota Dome Karukoski. 

Resumir o enredo de qualquer um de seus livros seria criminoso, mas seu trabalho é composto por três pilares: O Hobbit (1937), livro infantil de sucesso moderado; O Senhor dos Anéis (1955), saga que reutiliza alguns dos personagens do primeiro em um tom sombrio e dramático; e o póstumo O Silmarillion (1977), que aprofunda a mitologia da Terra-média desde sua cosmogênese, como uma espécie de Antigo Testamento.

Recentemente a editora Martins/Martins Fontes, sua casa editorial anterior, publicou As Aventuras de Tom Bombadil, reunião de poemas compostos majoritariamente entre os anos 1920 e 1930, sobre o carismático personagem que auxilia Frodo e sua trupe no primeiro volume de O Senhor dos Anéis. Já a HarperCollins começou sua reedição com sua biografia por Humphrey Carpenter. 

Embora o próprio Tolkien reprovasse o texto biográfico para se compreender um autor, o livro não se limita a relatar fatos, mas empreende uma investigação acerca dos aspectos de sua vida que o influenciaram para entender como Ronald, um professor suburbano de Oxford, se tornou Tolkien, cultuado por gerações. 

Nascido numa África do Sul em evidência após a descoberta de ouro e diamante, Ronald teve uma infância idílica em Bloemfontein, marcada pelo contato com a natureza que viria a se refletir na ode à preservação ecológica implícita em sua obra. Mesmo após a morte precoce do pai, ele viveria até os 13 anos com sua mãe, Mabel Suffield, em Sarehole, uma região bucólica do interior da Inglaterra, muitas vezes associada ao Condado dos hobbits. Lá, Ronald cresceu lendo Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e o Red Fairy Book, de Andrew Lang, que deu início ao seu fascínio por dragões. O vilarejo, sugere o biógrafo, representou para ele um passado idealizado, a infância que chegou ao fim com a morte da mãe. Não por acaso, o autor considerava os anos que viveu em Sarehole “os mais longos da minha vida e que foram os mais importantes na minha formação.”

Guerra. Ao lado de Hemingway, T. E. Lawrence e Frederic Manning, Tolkien compõe o ilustre grupo de escritores que combateu na 1.ª Guerra Mundial. Após perder amigos de infância para a artilharia alemã e lutar às margens do rio Somme, em 1916 ele retornou à Inglaterra acometido pela “febre das trincheiras”. Durante a convalescença, começou a dar forma a seus idiomas fictícios, compor poemas para embasar essas línguas e escrever histórias a respeito de sua mitologia. 

O primeiro texto concluído foi A Queda de Gondolin, que teve uma versão reduzida incluída no Silmarillion, mas cuja íntegra permaneceu inédita por mais de cem anos, até agora. Talvez influenciado pelas cenas que testemunhou na França, Tolkien narra, com vívidas descrições, a investida de um exército de orques (monstros comandados pela entidade maligna Morgoth) contra uma cidade élfica, e como o humano Tuor ajuda os elfos na fuga de sua fortaleza. A edição que chega aos leitores em 2018, organizada por seu filho, Christopher Tolkien, reúne versões anteriores do conto, além de rascunhos e anotações que revelam muito sobre o caótico processo criativo do autor.

Foi também a guerra que inspirou o esforçado hobbit Samwise, que acompanha Frodo em sua jornada para destruir o Anel. Como Tolkien escreveu, Sam é “um reflexo do soldado inglês, dos soldados rasos e ordenanças que conheci na guerra de 1914 e reconheci como tão superiores a mim.”

Filologia. Na adolescência, Ronald começou a criar línguas como que para desfrutar da sonoridade das palavras. “Se tivesse se interessado por música, provavelmente desejaria compor melodias, então por que não criar um sistema pessoal de palavras que seria como que uma sinfonia particular?”, pergunta Carpenter. O biógrafo enfatiza a emoção que Tolkien sentiu “quando começou a perceber que uma boa parte da poesia e da prosa da Inglaterra anglo-saxã fora escrita no dialeto falado pelos antepassados de sua mãe”. 

Antes mesmo de estudar filologia, encantou-se pelo épico anglo-saxão Beowulf, que seria um de seus principais objetos de estudo, e Crist, poema medieval de Cynewulf. Nessa época, a Kalevala, compilação de poemas finlandeses e repositório de mitos nórdicos, foi outra fonte de deleite para o jovem, inspirando-o a compor os idiomas élficos “quenya” e “sindarin”. Seu método de criação de línguas era complexo. Ele sempre imaginava um dialeto primitivo, anterior, que teria dado origem a esses dois, e a partir do qual os fonemas e as construções sintáticas evoluiriam organicamente, como as línguas surgiram na vida real. Sua gênese de palavras e nomes era rigorosa ao ponto de ele não “inventá-las”, mas “descobri-las” a partir de outras, quase como uma revelação epifânica.

Religião. Pode parecer incongruente que uma mitologia inspirada em lendas pagãs, até hoje parte da laica cultura geek, tenha alguma relação com o cristianismo. Entretanto, Tolkien sempre argumentou que sua obra era cristã como ele. A tese do biógrafo é que o escritor associava a morte da mãe ao descaso e à intolerância da família protestante por sua fé católica, e a religião que ela lhe transmitiu preencheu a lacuna deixada por ela: “Se o mundo não houvesse decaído e o homem não estivesse corrompido pelo pecado, ele teria vivido uma infância tranquila com sua mãe em um paraíso – como Sarehole se tornara na sua memória.” 

As temáticas da mitologia da Terra-média podem ser reduzidas a três eixos principais: a queda, a mortalidade e o progresso. “Tolkien acreditava piamente que outrora existira um Éden na terra e que o pecado original e a subsequente queda do homem eram responsáveis pelos males do mundo, mas os seus elfos, embora capazes de pecar e errar, não ‘caíram’ no sentido teológico”, explica Carpenter. É assim que ele compreende o fato de a mortalidade dos humanos ser um presente de Eru Ilúvatar, a deidade suprema da Terra-média. 

Quanto ao progresso, Tolkien sempre desconfiou do avanço tecnológico, exprimindo horror às ferrovias que sangravam as paisagens pastoris da infância. Isso é entrevisto em Isengard, fortaleza do corrompido mago Saruman em O Senhor dos Anéis, praticamente uma fábrica de soldados, desmatando a floresta em seu entorno e remetendo à industrialização. O próprio Anel pode ser visto como uma máquina, um dispositivo de dominação que corrompe seu portador. “Nossos mitos podem ser mal orientados, mas se dirigem, ainda que vacilantes, para o porto verdadeiro, ao passo que o ‘progresso’ materialista conduz apenas a um enorme abismo”, escreveu Tolkien. E em outra ocasião ele arremata, referindo-se aos domínios da entidade vilanesca Sauron: “Assim é a vida moderna. Mordor entre nós.” 

Recepção. Houve críticos que retaliaram, na época, a obra de Tolkien como escapista, muito em função da rejeição do autor às interpretações dos livros como metáforas políticas. No entanto, seu desprezo pela alegoria não quer dizer que ele não abordasse temas universais. “Penso que muitos confundem ‘aplicabilidade’ com ‘alegoria’, mas uma repousa na liberdade do leitor, e a outra na dominação proposital do autor”, escreveu no prefácio de uma edição posterior de O Senhor dos Anéis. 

Embora comum, a acusação de maniqueísmo cai por terra ao examinar a ambiguidade moral nas violentas lendas do Silmarillion, com suas relações familiares trágicas, por vezes parricidas, fratricidas e incestuosas. Ou ver como o Anel desperta as sombras interiores de seus portadores pretensamente “bonzinhos”. Na obra de Tolkien, bondade e maldade não são diferenças de natureza, mas de grau, o que reflete com perfeição sua visão de mundo decaído como origem do mal. Até a arquetípica jornada do herói é subvertida pelo fracasso final de Frodo em resistir à tentação do Anel. 

Aliás, quando os críticos sugeriam que sua saga lembrava o Anel dos Nibelungos, de Wagner, o autor respondia aborrecido que “ambos os anéis eram redondos, e é aí que a semelhança termina.”

Para Carpenter, “sua ênfase implícita na proteção da paisagem natural contra a destruição provocada pela sociedade industrial harmonizava-se com o crescente movimento ecológico”, o que fez com que sua obra fosse prontamente abraçada pela contracultura. Isso pode soar contraditório, uma vez que, pelo menos linguisticamente, é uma negação das vanguardas artísticas do século 20. Assim como Robert Heinlein e seu Estranho Numa Terra Estranha, Tolkien foi um autor conservador abraçado por um público progressista e hippie.

Há, porém, um ponto de intersecção entre ele e suas contrapartes modernistas, e Jenny Turner notou isso no London Review of Books: “Um escritor, nascido nos anos 1890, célebre por três livros. O primeiro é curto, elegante e um clássico instantâneo. O segundo, a obra-prima, tem os mesmo personagens, é muito mais longa e complicada, e tem crescente interesse em mitos e jogos de linguagem. O terceiro é enorme, maluco, ilegível.” Ela se referia tanto a James Joyce quanto a Tolkien. 

Embora fosse um antípoda do modernismo – em Oxford, ele liderava os professores da “facção clássica”, pré-Chaucer, contra os “modernos”, pós-Shakespeare –, paradoxalmente esteve de certa forma sintonizado com um aspecto pontual desse movimento. Enquanto Joyce forneceu uma mitologia para a Irlanda e, no Brasil, Mário de Andrade usou lendas indígenas em registro moderno para criar sua rapsódia nacional, Tolkien dedicou sua vida a um projeto literário semelhante, e ainda mais ambicioso. Ao deglutir folclore pagão, tradição épica, línguas medievais e sua religiosidade com a intenção de fazer um repositório de mitos para a Inglaterra, Tolkien criou uma mitologia não apenas para seu país, mas para a legião multicultural de leitores que sua obra suscita no mundo.

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