Dez distopias essenciais de várias épocas para conhecer o gênero

Dez distopias essenciais de várias épocas para conhecer o gênero

Lista reúne livros que vão desde os clássicos de Orwell e Huxley até contemporâneos, como Margaret Atwood

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2019 | 16h00

A edição especial do Aliás sobre distopias trouxe o ponto de vista da literatura, da história, do cinema e da filosofia sobre esse gênero que tanto fascina nossos tempos. Abaixo, uma seleção com dez obras de épocas diversas para entrar em contato com as várias facetas do estilo.

Nós - Ievguêni Zamiátin (Aleph)

Embora publicado apenas em 1924, o livro foi escrito em 1920 por Zamiátin. Lançado em inglês, ele foi então proibido na União Soviética, onde só chegou em 1988 com a abertura política. Considerado o marco zero da literatura futurista distópica, Nós traduz algumas experiência pessoais do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917. Seu protagonista, um cientista, passa a questionar o funcionamento da sociedade em que vive, aparentemente perfeita. A opressão, no entanto, é a arma que mantém todos em silêncio, reduzidos a criaturas sem identidade. O livro de Zamiátin fez história, influenciando outros clássicos distópicos, entre eles 1984, de Orwell.

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley (Biblioteca Azul)

Livro lançado por Aldous Huxley em 1931, nele o autor imagina uma sociedade em que bebês são gerados e alimentados por incubadoras e onde as palavras pai e mãe carecem de sentido. Nessa sociedade, organizada por princípios exclusivamente científicos, em que as pessoas são programadas para cumprir um papel desde crianças, e em que a racionalidade é a verdadeira religião, não há espaço para o livre arbítrio. Huxley antecipa o que aconteceria em sociedades totalitárias que viriam a nascer logo depois da publicação do livro, como a da Alemanha sob o tacão nazista. Clássico absoluto do gênero que abriu aportas para outra ficção distópica, Kallocaína.

Kallocaína - Karin Boye (Carambaia)

Kallocaína é um romance distópico da autora sueca Karin Boye, publicado em 1940. A exemplo de Huxley, em Admirável Mundo Novo, a autora descreve uma sociedade totalitária num futuro desumanizado em que um químico, Leo Kall, trabalha para o Estado Mundial, que controla toda a sociedade. Ele inventa o soro da verdade kallocaína quando se encontra numa prisão do Estado, conduzindo testes com cobaias humanas até que a Polícia começa a comandar o uso da droga. A sueca Karin Boyle, poeta modernista, se matou um ano após a publicação de seu hoje clássico, quando os soldados nazistas avançavam sobre o território europeu. 

1984 - George Orwell (Companhia das Letras)

O controle do Estado sobre a vida de cidadãos vítimas de atos arbitrários, que foi tema de Karin Boye em Kallocaína, é retrabalhado pelo inglês George Orwell em seu assustados 1984, publicado em 1949. O livro tornou-se um clássico, popularizando a imagem do Big Brother, o Grande Irmão, de cuja vigilância ninguém escapa. Apesar disso, o poder do Estado é desafiado por um grupo revolucionário. Na edição especial lançada este ano pela Companhia das Letras, com capa dura e ilustrações, há ensaios de autores como Thomas Pynchon e Irving Howe, que analisam onde começa a profecia e termina a sátira no livro do socialista Orwell.

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury (Biblioteca Azul)

Popularizado pela adaptação feita para o cinema pelo diretor francês François Truffat, Fahrenheit 451, do norte-americano Ray Bradbury, publicado em 1953, eleva à enésima potência o terror da sociedade autoritária de 1984. Na sociedade imaginada por Bradbury, os livros são proibidos e queimados e o povo é controlado pelo Estado por meio de programas interativos de TV. Bradbury, como seus antecessores na ficção distópica, imaginou um mundo futuro nada agradável, preparando terreno para distopias igualmente assustadoras, como Laranja Mecânica, de Anthony Burguess, que descreve uma sociedade em que prevalece a violência.

Laranja Mecânica - Anthony Burgess (Aleph)

O futuro imaginado por Anthony Burgess em Laranja Mecânica (1962) era espantosamente parecido com o presente em que ele vivia, e isso contribuiu para o sentimento de assombro proporcionado por seu livro. Em uma Inglaterra dominada por gangues juvenis que pilhavam, estupravam, matavam e cultuavam a “ultraviolência” sem pudores, um governo com viés autoritário tenta solucionar o problema da segurança pública por meio de um tratamento que associa a violência a náuseas e, em tese, impediria os jovens delinquentes de praticar esses atos. O destaque é a inovação linguística das gírias que mesclavam inglês e russo em neologismos críveis.

Os Despossuídos - Ursula K. Le Guin (Aleph)

Em meio à Guerra Fria, a era das utopias políticas sendo postas em prática, Os Despossuídos (1974) retrata um sistema binário entre dois planetas, um capitalista e um comunista, que vivem um clima de hostilidade semelhante ao que tinham Estados Unidos e Rússia. Nesse cenário, um brilhante cientista do planeta comunista é cooptado pelos rivais para trabalhar em um projeto. O livro alterna dois tempos: sua viagem para o novo lar e sua vida pregressa. Com isso, Ursula K. Le Guin conseguiu retratar as qualidades, defeitos e, principalmente, contradições de ambos os sistemas econômicos, mostrando-os simultaneamente como utopias e distopias. 

O Conto da Aia - Margaret Atwood (Rocco)

Na esteira de escritoras como Ursula Le Guin, Joanna Russ e Marion Zimmer Bradley, que subverteram as convenções da literatura fantástica para abordar a perspectiva feminista, Margaret Atwood criou, em 1985, o ápice desse questionamento. O Conto da Aia imagina um mundo em que uma grande parte das mulheres deixou de ser fértil e uma seita religiosa ascendeu ao poder nos Estados Unidos, criando uma sociedade baseada em castas que escraviza as mulheres capazes de gerar filhos – as aias. O livro retornou à tona após a eleição de Donald Trump, ganhou uma série bem-sucedida produzida pelo Hulu e, em 2019, uma sequência: Os Testamentos, vencedor do Booker Prize. 

A Parábola do Semeador - Octavia Butler (Morro Branco)

Na duologia composta pelos romances A Parábola do Semeador (1993) e A Parábola dos Talentos (1998), a empatia é tratada como uma doença; as mudanças climáticas estão minando a vida nas cidades; e grupos políticos compostos por supremacistas brancos e fanáticos religiosos assumem o poder nos EUA. A protagonista vive em um condomínio fechado, protegida das minorias étnicas e de refugiados que vagueiam para além dos muros. No segundo livro, um candidato à presidência promete, em sua campanha eleitoral, “tornar a América grande novamente”, exatamente o slogan que seria utilizado na vida real. Butler só errou a data: sua obra se passa na década de 2020. 

A Fila - Basma Abdel Aziz (Rocco)

A Fila é o romance de distopia política que melhor retratou o sentimento popular após a Primavera Árabe. Nesta ficção, a escritora egípcia Basma Abdel Aziz retrata um governo totalitário em uma nação fictícia do Oriente Médio. (Vale lembrar que o Egito foi às ruas em 2011, o que pôs fim ao regime de 30 anos de Hosni Mubarak, mas degenerou em um período de repressão violenta em 2013). Em A Fila, após levantes populares frustrados, um grupo misterioso chamado O Portão tomou o poder no país. O livro narra o drama de Yehya, que precisa enfrentar a burocracia kafkiana do Portão, na forma de uma enorme fila, para passar por uma cirurgia.

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