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Dois novos livros colocam a liberdade em discussão

‘The Dawn of Everything’, de David Graeber, e ‘The Free World’, de Louis Menand têm a tarefa de explicar o termo

Martim Vasques da Cunha, Especial para o Estadão

19 de fevereiro de 2022 | 16h00

Dois livros publicados recentemente, The Dawn of Everything – A New History of Everything, do antropólogo David Graeber (morto em 2020) e do arqueólogo David Weingrow, e The Free World – Art and Thought in Cold War, do ensaísta Louis Menand, mostram que, apesar de serem obras separadas por séculos e milênios em seus respectivos assuntos, ainda assim possuem um tema em comum que permanece essencial nas nossas vidas: o da liberdade.

O primeiro livro é uma ousada recriação dos primórdios da humanidade. Seus alvos contemporâneos seriam as grandes sínteses que viraram best-sellers nas mãos de divulgadores científicos como Yuval Noah Harari (Sapiens e Homo Deus) e Jared Diamond (Colapso), mas depois as armas se voltam para os dois verdadeiros filósofos que, segundo Graeber e Weingrow, são os principais responsáveis por divulgar uma visão equivocada do que seria a natureza humana: Thomas Hobbes (Leviatã) e Jean-Jacques Rousseau (O Contrato Social).

Já a segunda obra é também uma outra releitura. No caso, dos últimos cinquenta anos do tumultuado século 20 – também conhecidos com o nome de Guerra Fria, o período em que a política ocidental estava dividida entre duas grandes superpotências: os Estados Unidos da América e a União Soviética. Ao contrário de Graeber e Weingrow, Menand não quer polemizar com ninguém. Na verdade, seu estilo plácido, próximo ao de um relatório minucioso, com dados cuidadosamente checados, torna-o perfeito como um livro de história que se torna um complemento ideal para Pós-Guerra, o épico histórico de Tony Judt lançada no início dos anos 2000.

A dupla de The Dawn of Everything pouco se importa com placidez ou serenidade. Ela veio para questionar – para depois reconstruir. Seu argumento principal é que o nosso conceito do que seria liberdade está completamente equivocado. Entendemos isso como o acesso equânime a recursos materiais (terra, alimentos, meios de produção) quando o que está em jogo é a nossa capacidade para contribuirmos por igual nas decisões a respeito de como devemos viver. Com este fato em mente, Graeber e Weingrow desenvolvem um retorno a lugares caros para a antiguidade – mais exatamente as escavações daquela região conhecida como Crescente Fértil –, indo depois aos primeiros contatos entre os europeus e os povos indo-americanos, para afirmarem que o que supúnhamos ser os selvagens eram na verdade muito mais cosmopolitas do que imaginava a nossa vã filosofia.

Inspirados pelos estudos de Gregory Bateman e James C. Scott, além de várias pesquisas históricas e antropológicas, todas muito bem atualizadas, Graeber e Weingrow conseguem transmitir a importância dessas questões aparentemente distantes para o nosso tempo quando colocam o dilema de ser livre em três pontos muito simples em termos de síntese teórica, porém difíceis na hora de executá-los. O primeiro é a liberdade de se ter o controle da violência entre os homens; depois há a liberdade de escolher ou não o controle da informação (ou do conhecimento, se formos mais precisos); e, last but not least, a liberdade de querer se levar ou não pelo carisma individual de um líder dentro de um determinado grupo.

Os itens acima também estão no livro de Louis Menand, mesmo que a preocupação dele seja explicar como, durante a Guerra Fria, as liberdades articuladas por Graeber e Weingrow se perderam com o crescimento exponencial do Estado dentro da esfera da cultura e do debate intelectual. Por meio de uma narrativa intrincada, a qual mostra que, mais do que uma rede, o que houve foi uma tapeçaria de pessoas e conceitos que se relacionavam por “afinidades eletivas”, cujos nomes vão de Hannah Arendt a Jean-Paul Sartre, passando por Pauline Kael e Frantz Fanon, até chegar aos implausíveis James Burnham e Norman Mailer, começamos a ter noção de que a história do século 20 não foi a da proliferação da liberdade, mas sim a do seu crepúsculo. A escolha do elenco é vasta porque o assunto é intrincado, mas este tipo de painel é essencial para que se compreenda qual é a situação delicada em que nos encontramos.

E a situação é a seguinte, meu caro leitor: entre a aurora da humanidade e a “guerra fria” do nosso progresso, não só nos esquecemos o que realmente significa ser livre como também perdemos a capacidade de transformar o nosso próprio destino. Esta é a mensagem – sem nenhum moralismo – que Graeber e Weingrow desejam alterar a qualquer custo. Ou seja: somos, sim, capazes de mudar essa noção antiquada (e errada) de liberdade, se tivermos a coragem para nos soltar das amarras das ilusões construídas por esse “mundo livre”. Para Louis Menand, a máquina estatal e tecnocrática, criadora de conflitos eternos, sufocou qualquer espécie de virtude; já para os autores de The Dawn of Everything, essa mesma virtude precisa ser redescoberta, pois ela sempre esteve dentro de nós, seja na paz, seja na guerra. Que tenhamos a sabedoria para conquistá-la novamente

SERVIÇO

The Dawn of Everything 

David Graeber 

‎Ed.: Farrar, Straus

704 páginas 

R$ 136

*

The Free World

Louis Menand

Ed.: Farrar, Straus

880 páginas

R$ 140,33

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