Efeitos do Brexit já são sentidos na literatura britânica

Efeitos do Brexit já são sentidos na literatura britânica

Romances recentes exploram, direta ou indiretamente, a identidade do país após separação da União Europeia

The Economist

14 Julho 2018 | 16h00

Mark Cocker, escritor e ambientalista britânico, comprou Blackwater, um terreno de 50 mil metros quadrados de feno úmido silvestre, em 2012, com o objetivo de devolvê-lo a um estado natural. Hoje o local fervilha de vida, trilhas pouco visíveis cortam ciprestes e malva, cicuta dos prados e bardana. Pequenas aves cantam no salgueiro amarelado, enquanto cada folha parece receber uma borboleta ou libélula ou lagarta. Há moitas de urtigas, arbustos tortuosos e uma sensação de que, apesar de toda a sua beleza, esse terreno não é feito para pessoas, mas para o que Cocker chama de “partes mais que humanas da vida”.

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Seu livro mais recente, Our Place (Nosso Lugar), é uma catilinária contra os britânicos – que, apesar de seu autodeclarado amor à natureza e da ampla participação em grupos de conservação, arruinaram sua paisagem e reduziram sua biodiversidade. “A cada passo da estrada, fazemos as nossas escolhas”, escreve Cocker. Em um livro que oscila entre a raiva e o pessimismo, há um único raio de esperança: o Brexit.

Blackwater fica a poucos quilômetros de Great Yarmouth, uma das cinco cidades mais entusiastas no voto pela saída do país da UE. Pelo que ele mesmo declara, Cocker é um “esquerdista liberal”. Mas em Our Place ele sugere que deixar a União Europeia, e o “sistema feudal” da Política Agrícola Comum, pode ajudar a reformular o relacionamento da Grã-Bretanha com o mundo natural, incentivando seus compatriotas a “reconhecerem realmente que a terra é um ativo único e especial”. Em seu sotaque de Derbyshire, Cocker diz que suas esperanças para o Brexit são “uma sombra daquilo que aconteceu depois do fim da 2.ª Guerra Mundial, quando as pessoas disseram: ‘Sabe, eu realmente quero poder andar sobre terra, e eu quero compartilhar isso’.”

Prateleiras de livros tentaram explicar o referendo Brexit de 2016. Em The Road to Somewhere (O Caminho para Qualquer Lugar), por exemplo, David Goodhart, ex-editor da revista Prospect, argumenta que os britânicos se dividiram entre “em lugar algum” e “qualquer lugar". Os romancistas pesaram ao lado dos políticos. Autumn (Outono) e Winter (Inverno), os dois primeiros livros de um quarteto da autora Ali Smith, tentam dissecar as divisões da Grã-Bretanha pós-Brexit. The Lie of the Land (A Mentira da Terra), de Amanda Craig, apresenta um choque entre qualquer lugar e lugar algum na zona rural de Devon.

Em certo sentido, porém, cada livro traz traços dos tempos nos quais foi escrito – e algumas das reflexões mais sutis e interessantes sobre as raízes do Brexit vieram em títulos que se envolvem indiretamente com o assunto. Our Place menciona o Brexit apenas seis vezes; mas o viu sob uma certa luz, é um livro sobre o Brexit escondido em um manifesto sobre a natureza. É sobre um senso de lugar e relação de uma nação com sua terra. É sobre patrimônio, nostalgia e identidade; superpopulação e migração e as ameaças que estas representam.

Tais preocupações não são só de Cocker. Sua restauração de Blackwater à condição em que se encontrava antes da chegada das ovelhas, pesticidas e do homem é parte de uma adoção mais ampla de “rebeldia”, na prática e na literatura. Tanto Feral (Selvagem), de George Monbiot, como Wilding (Silvestre), de Isabella Tree, defendem o poder autorregulador da natureza de florescer quando se abre mão do controle humano. Eles, por sua vez, fazem parte de um florescimento mais amplo da escrita sobre a natureza na Grã-Bretanha, liderada por Robert Macfarlane, cujo livro, The Old Ways (Velhos Hábitos), perambulava pelos antigos atalhos do país.

Esta tendência literária decolou antes do referendo, e aparentemente sem referência à relevância do caso, tem pouco em comum com o Brexit. Como Cocker, que cita radicais do século 19, como William Hazlitt e William Cobbett, seus expoentes tendem a ser de esquerda. No entanto, suas preocupações com a globalização, a urbanização e a homogeneização se sobrepõem de maneira notável às dos adeptos do Brexit. Em Where We Are (Onde Estamos), por exemplo, Roger Scruton, um filósofo conservador, descreve uma crise de identidade que ele atribui ao fato de os britânicos perderem contato com “o local e a vizinhança”.

Ambos os grupos se esforçam para localizar algo fundamental e imutável sobre a Grã-Bretanha em uma era de erosão e fugacidade. Da mesma forma, algumas das mais perspicazes alusões ao Brexit na ficção referem-se a ela apenas subliminarmente, talvez até inconscientemente, em vez de colocar a campanha e suas consequências em primeiro plano.

Dois romances que serão publicados no final deste ano compartilham as preocupações com a história e o lugar que Our Place aborda pelo prisma do ambientalismo. A paisagem campestre de Suffolk, que é o cenário de All Among the Barley (Todos no Meio da Cevada) de Melissa Harrison, fica a apenas uma hora de carro de Blackwater; o romance abre, no entanto, na época da colheita, em 1933, com as feridas de uma guerra ainda sendo sentidas, e a próxima vagamente perceptível no horizonte. Na história, Constance FitzAllen chega ao vilarejo de Elmbourne para pesquisar os costumes do país – “Nós simplesmente precisamos manter as velhas técnicas vivas” – e encontra ressentimento, violência e um florescente movimento político comprometido em preservar “a saúde e a pureza de nosso solo inglês”.

O narrador de Ghost Wall (Parede Fantasma), de Sarah Moss, é Sylvie, nascida Sulevia, que recebeu o nome de uma antiga deusa britânica. Bill, seu pai, a arrasta em viagens de “arqueologia experimental”, nas quais ela é forçada a “redescobrir o meio de vida dos caçadores-coletores pré-modernos”, vestindo uma túnica, procurando comida e dormindo em um beliche de madeira. Em seu gosto tanto pelo lugar como pelo derramamento de sangue, Bill se assemelha a dois outros pais duros e carismáticos em romances recentes que respondem de maneira oblíqua ao momento político – Daddy em Elmet de Fiona Mozley e Mac em Pig Iron (Porco de Ferro) de Benjamin Myers. Outro personagem em Ghost Wall discerne a causa da busca incansável de Bill por uma Grã-Bretanha autêntica: “Ele gosta da ideia de que exista algum espírito britânico original em algum lugar, que se ele retornar longe o suficiente, encontrará alguém que não era estrangeiro.”

Ocasionalmente, os romances não só refletem os acontecimentos, mas os profetizam. Talvez uma meditação mais aguda sobre o Brexit, também a mais incomum, tenha sido escrita antes da votação. Publicado em 2015, O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro (ganhador do prêmio Nobel de literatura do ano passado), é ambientado na Grã-Bretanha dos tempos do Rei Arthur. Saxões e britânicos vivem juntos pacificamente, protegidos da memória por uma nuvem de neblina que chama o esquecimento. Então a névoa começa a se dissipar.

O livro parece articular muitas das ansiedades que tomaram conta do país após o seu lançamento. Dramatiza a violência que sustenta a identidade nacional, pedindo aos leitores que considerem o que acontece quando os cidadãos repentinamente tomam consciência de que são diferentes dos outros, quando os laços da comunidade são afrouxados e as conexões com o lugar ameaçadas ou cortadas. Em seu conto sobre o passado mítico, Ishiguro mostra quão ambivalentes são as forças tanto da história quanto da natureza, e quão perigoso pode ser olhar para trás. / Tradução de Claudia Bozzo 

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