Angus Muir/The New York Times
Angus Muir/The New York Times

Escritor inglês Robert Macfarlane percorre paisagens subterrâneas em livro

'Underland' reúne relato de viagem a referências eruditas para constatar a era do Antropoceno

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

23 de novembro de 2019 | 16h00

Em A Gaia Ciência (1882), Nietzsche escreveu que “guardemo-nos de dizer que a morte se opõe à vida. O que está vivo é apenas uma variedade daquilo que está morto, e uma variedade bastante rara”. O filósofo alemão apenas argumenta algo que poucos têm a coragem de entender: o fato de que, no nosso mundo, quem nos governa não são os vivos, mas sim os mortos.

Esta é a dura lição que o escritor inglês Robert Macfarlane aprendeu durante o percurso registrado no seu livro, Underland: A Deep Time Journey, lançado recentemente e destinado a ser a grande publicação de 2019. Dono de um estilo que consegue refletir o espanto da natureza nos corações humanos (e vice-versa), Macfarlane faz parte de uma tradição anglo-saxã ainda pouco conhecida no Brasil: a dos relatos de viagem que, geralmente, exibem um virtuosismo poético digno dos melhores versos de W.H. Auden, Seamus Heaney e Ted Hughes. Não por acaso, esses poetas têm uma relação paradoxal com ambientes aparentemente serenos e bucólicos, porém imersos em uma corrente subterrânea de morte e destruição, em geral provocada pelo próprio homem.

Macfarlane estrutura sua jornada como se fosse um documentário dirigido por Werner Herzog, moldado por uma prosa que é obviamente influenciada por outro clássico da literatura ecológica – The Peregrine (1967), de J.A. Baker, sobre a observação de falcões raros (o “peregrino” do título) em vias de extinção nas regiões mais remotas da Inglaterra. Entretanto, em vez de ouvirmos a voz melancólica e bávara de Herzog, somos conduzidos pela voz calma, lírica e contemplativa de Macfarlane que, em livros passados, era obcecado com a presença das alturas em nossa educação sentimental – como na sua estreia, Mountains of the Mind (2003) – e agora mergulha no mundo do subsolo que estrutura em detalhes o nosso cotidiano.

Para o inglês, a underland, a terra que há embaixo dos nossos pés, é um território indefinido, repleto de tensão e de linguagem inarticulada, onde somos incapazes compreender adequadamente até que ponto ela influencia a vida visível da natureza. A ecologia, aqui, é importante, não para financiar as ONGs que a transformaram em um “exibicionismo moral”, e sim para que o ser humano entre em harmonia com uma outra espécie de tempo – um tempo em que as verdadeiras modificações são muito mais lentas, muito mais profundas e, se não forem atendidas pelos governantes, muito mais catastróficas.

A grande pergunta que atormenta a consciência de Macfarlane é a seguinte: Seremos bons ancestrais para nossos filhos, nossos netos e, no máximo, nossos bisnetos? O que faremos da Terra que deixaremos para o futuro? A peregrinação que responde a esta indagação começa nas cavernas inglesas, onde o inglês conta histórias tenebrosas de pessoas que ficaram presas entre fissuras que aparentemente não existiam ali; depois, descobre que a “matéria escura” que explica os segredos do cosmos só pode ser medida, de forma misteriosa, em uma viagem ao centro da Terra à la Júlio Verne; encontra-se com pesquisadores que lhe informam que a estrutura da natureza é interconectada e com tendência a sofrer metamorfoses imprevisíveis; desce aos subterrâneos de Paris, numa cidade invisível que é o exato oposto da Cidade Luz que encanta os turistas incautos; vai à região do Carso, entre a Itália e a Eslovênia, e visita lugares históricos que ocultam casos terríveis de ódio e genocídio raciais; bebe a água de rios que refletem as estrelas do céu, apenas para elucidar a si mesmo que elas são os astros os quais seu alimento vem somente do fundo do mar; emociona-se ao contemplar os primeiros desenhos humanos em uma caverna distante na Noruega; e, como se não bastasse, confronta-se com o frio dos icebergs, das geleiras e dos precipícios marítimos da Groenlândia, terminando numa cripta artificial na Finlândia, feita especialmente para guardar dejetos nucleares de urânio e plutônio – uma cripta que, se tudo der certo, sobreviverá mais do que toda a humanidade.

O que amarra todas essas visitas feitas por Macfarlane – e registradas com seu olhar compassivo – é a percepção aguçada de que estamos imersos na era do Antropoceno. Este termo foi popularizado pelo Prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul Crutzen, e divulgado em 2000, durante o encontro do IGBP (Programa Internacional Geosfera-Biosfera) em Cuernavaca, no México – e depois aprofundado em um artigo lançado na prestigiosa revista Nature, em 2002, com o título Geology of Mankind (Geologia da Humanidade). Ali, Crutzen define a era do Antropoceno (de antrophos, “homem”, e ceno, “novo”, em grego) como o momento histórico no qual o ser humano manipula a natureza conforme os seus desejos e suas necessidades – uma ação civilizatória que teria começado na Revolução Industrial e se aprofundou na década de 1950, especialmente com o surgimento dos testes atômicos. 

Independentemente das tendências da moda ecológica, o fato é que Macfarlane demonstra, em seu livro, que o simbolismo do submundo sempre esteve presente na nossa cultura. O Antropoceno é apenas mais um nome para uma experiência fundamental que já habitava nos nossos corações – a de que é essencial para a educação humana ir às profundezas da nossa alma. Que nos digam os mitos de Orfeu, de Pérsefone, do Hades, de Caronte, da descida aos infernos de Ulisses na Odisseia, de Homero; ou o “esvaziamento” (kenosis) de Jesus Cristo na Cruz; a terra devastada de T.S. Eliot; as canções sombrias de Lou Reed, David Bowie e Trent Reznor; as sinfonias perturbadoras de Zbigniew Penderecki; e, last but not least, os grandes romances épicos do final do século 20, como, por exemplo, a obra-prima Submundo (1997), de Don DeLillo.

Neste leque amplo de instantes aparentemente díspares, Macfarlane medita sobre o enigma que surge entre as relações perigosas com as limitações da linguagem e a amplitude do Antropoceno. “Na complexidade das estruturas e do escopo das escalas dentro do tempo e do espaço – do nanômetro ao planetário, do picossegundo ao éon –, o Antropoceno nos confronta com seus enormes desafios. Como interpretá-lo, ou até mesmo se referir a ele? Suas energias são interativas, suas propriedades emergentes e suas estruturas sempre se voltam para dentro. Falarmos sobre o Antropoceno, e até mesmo falarmos dentro do Antropoceno, é algo muito difícil. Talvez o melhor é imaginá-lo como uma época de perdas – das espécies, dos lugares e das pessoas – pela qual buscamos uma linguagem de luto e, algo ainda mais impossível de encontrar, uma linguagem de esperança”.

Por isso, ao contrário dos catastrofistas ambientais que pululam na mídia, Robert Macfarlane alcança aquela sabedoria oculta típica dos grandes escritores que sabem que, no fundo, a natureza ainda guarda alguns segredos na manga. É o domínio do subsolo que fundamenta cada detalhe do nosso dia a dia, o domínio onde os mortos passam a nos governar porque, se a era do Antropoceno perdurar, eles acabarão por criar uma nova ecologia cujas consequências são absolutamente imprevisíveis. Como sobreviveremos a esta nova (e tênue) variedade, ninguém sabe. O que pode-se dizer, com alguma certeza – e graças ao belíssimo livro de Robert Macfarlane – é que, tal como os versos de Em Louvor ao Calcário escritos por W.H. Auden, o que nos resta, por enquanto, é escutar “os murmúrios dos rios subterrâneos” a julgarem “os bem-aventurados que não têm nada a esconder” da vida e do futuro.

*MARTIM VASQUES DA CUNHA É AUTOR DE ‘A POEIRA DA GLÓRIA’ (RECORD, 2015) E ‘A TIRANIA DOS ESPECIALISTAS’ (CIV. BRASILEIRA, 2019)

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