Carambaia
Carambaia

Livro herético de Joris-Karl Huysmans ganha tradução inédita

'Nas Profundezas' provocou indignação e quase foi censurado na época

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

17 Novembro 2018 | 16h00

Relativamente pouco lido no Brasil, J.-K. Huysmans é um nome canônico literatura da França. Foi o primeiro presidente da Academia Goncourt, que até hoje concede o mais prestigioso prêmio literário nacional. A influência dele perdura, inclusive no mais badalado autor francês, Michel Houellebecq, em cujo romance Submissão o protagonista é um especialista em Huysmans. Em tempo: também o americano Norman Mailer escreveu uma novela (The Trial of Warlock) baseada em Nas Profundezas, que a Carambaia acaba de lançar.

Além de Nas Profundezas, outro livro icônico de Huysmans é Às Avessas (Companhia das Letras), o tal volume “amarelo e tóxico” a que se refere Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray, cujo protagonista – o esteta abonado Des Esseintes – Dorian mimetiza. A propósito, ele é tão lânguido e indolente que faria Macunaíma parecer workaholic.

Huysmans percorreu um amplo espectro nas letras (e nas artes: foi um dos mais proficientes lobistas dos impressionistas) da sua época. Primeiro bateu ponto religiosamente nas célebres “soirées de Médan”, onde residia Zola, o papa do Naturalismo. Depois amuou com o grupo, desertando para as antípodas: os saraus das terças-feiras na casa de Mallarmé, o corifeu do Simbolismo, onde se acotovelavam Whistler, Paul Valéry, Laforgue, André Gide, Oscar Wilde e Yeats, entre outros. 

Huysmans, naquele vaivém de ioiô, também flertou com o Decadentismo – aquilo que tanto Hitler quanto Stalin, babando nas respectivas gravatas, classificariam como “arte degenerada”. É bem verdade que já Baudelaire se referia a si mesmo como “decadente” na edição de 1857 das Flores do Mal. O Decadentismo (não confundir com seu apêndice italiano, posterior, protagonizado por D’Annunzio e Italo Svevo) postulava o excesso e artificialidade, numa espécie de Romantismo doidão. Caracterizava-se pela autoaversão, pela perversão e pela apologia da criatividade intuitiva contra a lógica e o mundo natural. A maioria dos decadentistas acabaram absorvidos pelo Simbolismo, como Edmund Wilson lacrou no clássico O Castelo de Axel

Nas Profundezas (Là-Bas no original, ou Lá Embaixo, alusão ao Inferno) saiu em forma de folhetim no jornal L’Echo de Paris, em 15 de fevereiro de 1891. Logo no primeiro fascículo os leitores mais beatos tiveram um piti e exigiram que o diário interrompesse a serialização, caso contrário cancelariam suas assinaturas – mas não foram atendidos. Porém, a venda do livro foi proibida nas estações ferroviárias francesas. O estigma repercutiu no exterior: uma tradução para o inglês demorou mais de trinta anos, e nos EUA a Sociedade Americana para a Supressão do Vício baniu a obra. 

Durtal, o protagonista do romance, é um autorretrato disfarçado e porta-voz do autor – e viria a monopolizar os dois livros seguintes de Huysmans, La Cathédrale e L’Oblat (este último situado na abadia beneditina onde o escritor viveu como oblato – monge leigo – de 1899 a 1901). A trilogia corresponde a uma crônica do adeus de Huysmans ao Naturalismo e da sua conversão – iconoclasta e quase sacrílega – ao Catolicismo. 

Na história, Durtal – um autor acabrunhado e com o saco cheio do mundanismo literário – decide escrever uma biografia de Gilles de Rais (1404-1440), o alucinado marechal francês que deu uma mãozinha a Joana D’Arc mas também foi uma espécie de Sade de farda, sanguinário e serial killer de crianças (há um bom romance sobre esse inopinado par: Gilles e Jeanne, de Michel Tournier). A pesquisa de Durtal segue mais ou menos o estudo clássico de Jules Michelet, As Feiticeiras, sobre ocultismo e a caça às bruxas na Idade Média e no Renascimento. Nas Profundezas, embora claramente enraizado no contexto do final do século 19, não deixa de pressagiar também o Zeitgeist deste nosso juvenil século 21. Entre outras coisas, através da pedofilia, da medicina alternativa, da filosofia esotérica New Age e da sexualidade feminina. 

O ultraje conservador anatematizou a cena mais famosa do romance: a da Missa Negra. O estilo de Huysmans, que se compraz com vocábulos raros e neologismos (desafiando a esplêndida tradução de Manuel Pinheiro), sem excluir por vezes um tom coloquial e meio fofoqueiro, naquela passagem chuta ao mesmo tempo o pau da barraca e o balde verbais. É de uma obscenidade tão blasfema (incluindo “o falo de Cristo”) que pode soar satírica ao leitor contemporâneo. Lembra um pouquinho uma letra de heavy metal (para sermos coerentes com a missa negra, talvez a banda Black Sabbath) – só que de um letrista alfabetizado. 

O próprio Huysmans ficou tão angustiado com esta viagem ao fim da noite (para invocar outro autor francês influenciado por ele, Céline) que passou a considerar Nas Profundezas seu “livro negro” – e para exorcizar a energia negativa escreveu depois um “livro branco”, En Route. E, claro, se converteu ao Catolicismo (seguro morreu de velho).

Antes que me esqueça: há um ditado gastronômico que saúda a apresentação do prato, segundo o qual “os olhos também comem.” Ora, no caso das edições da Carambaia, quase artesanais de tão esmeradas e atraentes, é pertinente uma paráfrase: com encadernações assim lindonas e apetitosas, “devorar um livro” quase deixa de ser uma força de expressão. Chupem, e-books!

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios) 

Mais conteúdo sobre:
literaturaJoris-Karl Huysmans

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.