Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Livro narra vidas de personagens inusitados das ruas de São Paulo

Em 'Corações de Asfalto', André Cáceres e Bruna Meneguetti jogam sobre estatísticas frias o calor da humanidade

Ronaldo Bressane*, Especial para o Estado

14 Julho 2018 | 16h00

“Assim como o motoqueiro solitário que não recebeu ajuda, quem se deita sobre o cimento de São Paulo depende muito mais de si do que dos outros para se levantar.” Na fatura de uma frase como esta, o leitor percebe que Corações de Asfalto (Patuá) é um livro com um pé na calçada da reportagem e outro na rua da literatura. A frase também sintetiza a ética de muitos personagens aqui retratados: pessoas solitárias que, aos trancos e barrancos, foram encontrando seu lugar em São Paulo. Repórteres e escritores, Bruna Meneguetti e André Cáceres transformaram seu amor pela cidade em investigação sobre as vidas de pessoas anônimas que tocam a vida no meio do redemoinho que engole 22 milhões de pessoas. O asfalto não é mera metáfora: o livro traz histórias de pessoas transformadas pelas ruas, como veremos.

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São histórias como as de Antonio Silva, cobrador de ônibus que se virou fotógrafo. “No começo eu tinha uma discriminação comigo mesmo. ‘Fiz tanta coisa e estou aqui de cobrador, o dia inteiro sem fazer nada’. Poxa... eu, cobrador? Aí comecei a procurar alguma coisa para fazer. Sempre gostei de fotografia.” Transitando entre Ipiranga, Sé, Theatro Municipal. Praça da República e Avenida São João, passou a registrar em fotografia os cartões-postais da cidade. Em 2004, comprou uma câmera Benq de 1.3 megapixels pagando 400 reais, o dobro de um salário mínimo, em dez prestações. Bateu uma foto de um assalto seguido de morte na rua Líbero Badaró, mandou para um concurso e saiu vencedor. Em 2005 veio a primeira exposição, no Sesc Ipiranga. A fotografia levou o cearense a ficar mais curioso e interessado em estudar. Dez anos depois daquele primeiro clique, formou-se em pedagogia.

Há seres fascinantes como Rodrigo Machado, o zelador da cidade, o homem que presta atenção a coisas quebradas totalmente ignoradas pelos passantes – como um cano lascado do metrô Vila Mariana, que consertou com durepóxi. “Me senti muito feliz por ter consertado aquele cano. Tenho vontade de consertar uma praça inteira.” Já arrumou pontos de ônibus, placas de trânsito, brinquedos e monumentos. Sem ninguém pedir nem ganhar nada, o artista plástico também usa lixo que encontra nas ruas para criar suas obras, as quais deixa nas vias públicas – obras efêmeras chamdas de snap art. “No planeta inteiro tudo tá ligado. Gente é igual planta! Então acho que existe um movimento grande nos centros urbanos de uma redescoberta da cidade como uma extensão da nossa casa.” 

Tem ainda a Daiana Siqueira, uma professora que virou feirante. “Meus amigos acharam que eu era louca por trabalhar em dois períodos em escolas e me casar com um feirante.” Especialista em alimentos orgânicos, ela coloca plaquinhas com informações nutricionais sobre cada alimento, transformando a feira em sala de aula. E, além da feira e da escola, Daiana também organiza expedições fotográficas para desvendar a cidade. Um traço interessante do livro é que cada história é contextualizada com números e informações sobre aquele ambiente investigado. Se na vida do cobrador surgem estatísticas sobre o trânsito e na de Rodrigo dados sobre o lixo urbano, no perfil de Daiana ficamos sabendo que apenas 0,4% da produção nacional é orgânica, que a barraca da professora é uma entre as 12 mil que povoam a 857 feiras livres de SP e que 40% dos feirantes são mulheres.

Há também o escritor que vende livros na calçada. Seguindo a senda aberta pelo dramaturgo Plínio Marcos, o jovem Eduardo Lages vende em uma banquinha na rua o seu romance Querido Jaime – a narrativa de um homem solitário de 72 anos que se sente oprimido pelo vazio de sua casa mas que, forçado a deixar o lar, é lançado em uma jornada de autoconhecimento. Vendeu mais de mil exemplares em um ano trabalhando na rua, o livro foi para a segunda edição e o autor já foi para o segundo livro.

Já a romântica Maída Novaes viu na rua a possibilidade de criar o grupo Trovadores Urbanos. Um belo dia, quando Zélia Cardoso de Mello sequestrou todo o seu dinheiro no famigerado Plano Collor, ela anunciou para o irmão, músico: “Fiquei sem grana e vou fazer serenatas em São Paulo.” “Você é louca, né?”, ele riu. “Você faz comigo?”, ela pediu. “Faço”, respondeu o irmão. Anos depois, com outros amigos na trupe, passaram a usar roupas de época. Maída calcula ter feito mais de cem mil serenatas (dez por dia), dez mil reconciliações, 800 shows e quatro turnês internacionais. Assim como o perfil do escritor de rua motivou uma discussão sobre os hábitos de leitura do brasileiro, o perfil da trovadora é mote para os jornalistas discutirem as dificuldades dos artistas independentes em sobreviver.

A luta pela sobrevivência ecoa na incrível história de Ravi Paschoa, ex-goleiro do Corinthians que, após perder o emprego entre as quatro linhas por conta de uma contusão, teve de virar motorista de Uber, fornecendo o mote para o casal de jornalistas compreenderem como funciona a vida dos motoristas autônomos –e também dos jogadores de futebol que não auferem os estratosféricos lucros de um Neymar da vida (99% dos casos). “Dirigir requer tanta concentração quanto disputar uma final de campeonato”, pensa o goleiro, que, depois de ter tomado um carrinho da vida, seguia sonhando ao volante de um carrão – no caso, um Siena prata – enquanto não encontrava um emprego sob as traves.

Uma das histórias mais curiosas é a de Seily Custódio, idealizadora do Desabafa: trata-se de uma psicóloga de rua. “Eu estou aqui para amar, cuidar, respeitar, ser para a pessoa tudo aquilo que ela muitas vezes não encontra em ninguém.” Ela colocou quatro banquinhos em uma esquina da avenida Paulista, uma mesinha e nele um cartaz com a frase: “Quer desabafar?”. Como a ouvidora-geral de São Paulo é adventista, o texto aproveita a deixa para discorrer sobre a variedade de grupos religiosos em São Paulo.

Já o ex-químico Claudio Bongiovani hoje vende a revista Ocas nas ruas para superar uma onda de azar: após ficar desempregado, em um acidente perdeu a mulher e dois filhos – e caiu no alcoolismo. Seu caso é exemplar para o livro se deter sobre a questão das pessoas em situação de rua – cerca de 15 mil pessoas, das quais 82% homens. Chega a ser incrível que o poder público não tenha competência nem imaginação suficientes para resolver a vida de somente 15 mil pessoas – uma massa humana que caberia no tobogã do estádio do Pacaembu. Com suas lupas bem-humoradas e sutis, a dupla Bruna & André extrai de estatísticas de porcelana individualidades ímpares, lembrando que o jornalismo é a arte de contar histórias – e de jogar sobre números frios o calor da humanidade.

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*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor do romance 'Escalpo' (editora Reformatório), entre outros

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