Kena Betancur/AFP
Kena Betancur/AFP

Livros analisam psicologia de Hitler e narram seus últimos momentos

'A Mente de Adolf Hitler' e 'A Morte de Hitler' exploram facetas específicas do ditador nazista

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2018 | 16h00

“Minha vida não acabará na mera formalidade da morte. Ao contrário, ela começará.” Assim o ditador nazista Adolf Hitler dizia encarar sua finitude – e, a julgar pela perenidade de sua memória, na forma de livros, filmes, debates e polêmicas, o Führer não estava errado em presumir-se eterno. Em seu caso, o interesse por sua morte não é menor do que o fascínio sobre sua vida, a despeito do fato notório de que tanto a primeira como a segunda já parecem suficientemente explorados por todo tipo de pesquisa, investigação e análise, sem falar dos boatos, rumores e teorias da conspiração.

Dois livros lançados recentemente no Brasil oferecem visões e perspectivas muito particulares e curiosas sobre o Hitler vivo e o Hitler morto. Tanto A Mente de Adolf Hitler (Leya) como A Morte de Hitler (Companhia das Letras) acrescentam quase nenhuma novidade à bastante conhecida trajetória do líder nazista, desde sua espetacular ascensão ao poder até seu suicídio num bunker em Berlim. Poucos personagens da História foram tão biografados, e hoje é praticamente impossível que ainda haja alguma informação inédita capaz de alterar a imagem consolidada de Hitler. Esses dois livros, contudo, exploram pontos de vista inusuais.

A Mente de Adolf Hitler é, como diz seu subtítulo – “O relatório secreto que investigou a psique do líder da Alemanha nazista” –, uma tentativa de “ler a mente” daquele que costuma ser identificado como o mal absoluto. Um trabalho desses só poderia ter sido conduzido por um psicanalista, que, no caso, foi o norte-americano Walter Langer, chefe do setor de Pesquisa e Análise do Escritório de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês), precursor da CIA, o serviço secreto norte-americano. Nessa condição, Langer produziu, em 1943, um estudo sobre o comportamento de Hitler. A ideia era tentar prever as atitudes do ditador nazista para ajudar os Aliados a planejar estratégias que antecipassem os movimentos da Alemanha na guerra, então em pleno curso.

Langer acreditava que a psicologia e a psicanálise fossem instrumentos válidos para decifrar a mente de ditadores totalitários. O problema é que um trabalho desse tipo necessariamente parte da presunção de que as atitudes desses tiranos são fruto de “loucura”, já que os resultados práticos – morte em escala industrial, destruição dos laços de solidariedade humana, crueldade em escala nunca vista – sugerem completa renúncia à racionalidade. Uma análise que parta da premissa de que Hitler cometeu “loucuras” só pode resultar numa tautologia, a de que Hitler era “louco” – tese, de resto, refutada pelos principais biógrafos do Führer.

Nada disso, contudo, tira o brilho do exame de Langer, que permaneceu secreto até 1972, quando enfim foi publicado. O analista dissecou a mente de Hitler de tal modo que quase tudo ali descrito, visto hoje em retrospectiva, é assustadoramente premonitório – inclusive sua tendência suicida. 

No entanto, talvez o aspecto mais interessante do trabalho de Langer seja a leitura que ele faz da mente dos alemães. Hitler, uma figura até certo ponto simplória e indistinta, proclamava “os desejos mais secretos, os instintos menos permissíveis, os sofrimentos e as revoltas pessoais de toda uma nação”, segundo descreveu Gregor Strasser, um dos dirigentes nazistas, conforme registra Langer. 

Hitler possuía, no dizer do psicanalista, a raríssima “capacidade de apelar às inclinações mais primitivas – e também as mais ideais – do homem para despertar os instintos mais baixos e, mesmo assim, mascará-los com nobreza, justificando todas as ações como meios para alcançar um objetivo ideal”.

É claro que Hitler não foi o primeiro e certamente não será o último líder carismático com esse poder de persuasão e mobilização, mas sua espantosa trajetória – como o homem que conduziu uma nação extremamente sofisticada na direção da barbárie absoluta – decerto o eleva a uma categoria muito especial, quase única, de protagonismo histórico. Por esse motivo, compreende-se que mesmo sua morte tenha sido cercada de tensão, mistério e conspiração, como descreve o livro A Morte de Hitler, dedicado a relatar, na forma de thriller, o que foi feito com o precioso cadáver do Führer após seu suicídio, em 30 de abril de 1945.

Não é um trabalho trivial, uma vez que nem mesmo a morte de Hitler foi aceita como fato por todos, seja na época, seja décadas mais tarde – relatos sobre um suposto exílio do líder nazista na América do Sul, por exemplo, abundam. Escrito pelo jornalista francês Jean-Christophe Brisard e pela documentarista russo-americana Lana Parshina, o livro é fruto da persistência dos dois autores na busca de documentos sobre a morte de Hitler em arquivos russos – descrita de modo a lhe conferir ares de uma trama de espionagem.

Tudo isso, é claro, para mal disfarçar o fato de que o livro nada traz de novo em relação à morte de Hitler – ele provavelmente ingeriu uma cápsula de cianeto e em seguida deu um tiro na cabeça. No entanto, os autores conseguiram reconstituir, de forma quase cinematográfica, e depois de enfrentar os obstáculos da burocracia russa, tanto os momentos finais de Hitler como a destinação de seus restos mortais.

Sabe-se que os cadáveres de Hitler e de sua mulher, Eva Braun, foram levados para o jardim da Chancelaria e incinerados. O trabalho, contudo, ficou pela metade, pois os fiéis assessores de Hitler tiveram de fugir ante o intenso bombardeio do Exército soviético, que àquela altura já invadia Berlim. Começou então uma corrida entre os Aliados, especialmente entre Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética, para ver quem conseguiria confirmar primeiro e então anunciar ao mundo a morte de Hitler.

O ditador soviético Josef Stalin, é claro, não queria perder essa disputa. Era preciso ter certeza de que Hitler havia morrido, e então o serviço secreto da URSS capturou sobreviventes que estavam com o Führer no bunker, para extrair deles – por meio de inclemente tortura – informações que confirmassem a morte. Menos de uma semana depois do suicídio, um comando secreto soviético foi até a Chancelaria e pegou o corpo de Hitler. Exames indicaram que era mesmo o líder nazista, mas Stalin manteve essa confirmação em segredo, dizendo aos britânicos e norte-americanos que Hitler ainda estava vivo e provavelmente havia fugido. Já naquele momento prevalecia o espírito de confronto e desinformação que marcaria a Guerra Fria.

Essa mentira de Stalin, que só foi totalmente esclarecida muitos anos mais tarde, ajudou a alimentar toda a sorte de teorias sobre a morte de Hitler desde então – e que tornam essa história tão fascinante, mais do que qualquer obra de ficção.

*Marcos Guterman é jornalista, doutor em história pela USP e autor do livro 'Nazistas Entre Nós' (editora Contexto) 

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