Sony Pictures Classics
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'Sem Amor' tem pano de fundo russo para abordar tema universal

Obra do diretor russo Andrei Zviagintsev concorre ao Oscar de filme estrangeiro

Henrique Canary*, Especial para o Estado de S. Paulo

03 Março 2018 | 16h00

O grande crítico literário russo do século 19 Vissarion Belinski disse certa vez que a literatura russa é sublime porque nela as particularidades nacionais são apenas o pano de fundo sobre o qual se abordam as grandes questões da humanidade. Enquanto tentou adaptar a métrica, a temática e a linguagem ocidentais ao idioma russo, a literatura russa não foi muito mais do que uma aprendiz esforçada. Foi somente quando decidiu retratar a fundo a vida nacional, que a literatura russa se tornou realmente universal. Ao falar do pequeno burocrata de São Petersburgo, da exploração do mujik, da decadência da nobreza, de popes e startzí, ela se fez compreender pelo ocidente. 

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O cinema russo contemporâneo parece, em um certo sentido, seguir os passos da literatura. Com relativamente poucos filmes no currículo (apenas cinco longas), Andrei Zviagintsev se tornou uma das maiores revelações dos últimos tempos. Vencedor de vários prêmios internacionais, o diretor de 54 anos constrói suas obras em um esquema onde, por baixo de uma superfície tipicamente nacional, analisam-se problemas de importância histórico-universal. É isso que torna seu trabalho mundialmente significativo.

Seu mais premiado filme até agora, Leviatã, retrata a vida de uma distante província no norte da Rússia, onde as grandes estruturas de poder esmagam as pequenas pessoas. Neste longa de 2014, Zviagintsev mescla um retrato belíssimo da natureza russa com uma dura crítica à situação política do país. Em todos os seus trabalhos, o dia a dia da vida russa é o caminho que conduz a problemas mais gerais e profundos.

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Sem Amor (2017) repete com sucesso essa mesma lógica. Como afirmou o próprio diretor, trata-se de um filme “nascido na Rússia, completamente russo”. No entanto, também aqui, a especificidade da vida russa é o cenário no qual o cineasta trata de problemas perturbadoramente compreensíveis para qualquer espectador ocidental.

O filme se passa no outono de 2012, num pacato bairro de uma Moscou fria e úmida. Jênia (Mariana Spivak) e Boris (Aleksei Rozin) estão se divorciando. Mas como acontece em muitos casos, os dois ainda vivem sob o mesmo teto, ainda que em cômodos separados. Ambos estão tentando reconstruir as suas vidas com novos parceiros e novos interesses. No caminho de sua felicidade está o pequeno Aleksei, de 12 anos, único filho do casal. Nenhum dos dois deseja ficar com a criança, que sofre em silêncio não apenas devido às violentas brigas de que é testemunha, mas principalmente porque entende que não é amado por ninguém. Certo dia, Aleksei desaparece sem deixar vestígios. Jênia e Boris são obrigados e empreender uma busca conjunta pelo menino. Em meio à incerteza e ao desespero gerados pela situação, velhas mágoas vêm à tona e outras novas surgem, e eles percebem que nem mesmo o desaparecimento do filho é capaz de reconstruir qualquer laço entre os dois. Ao contrário, o abismo do desamor só se amplia, engolindo a todos.

À primeira vista, tudo em Sem Amor parece ser tipicamente russo: o bairro recém construído, a empresa capitalista dirigida por um “fundamentalista ortodoxo”, a lentidão burocrática, a jovem e bem sucedida família de classe média. Mas isso é somente o alicerce sobre o qual Zviagintsev constrói a verdadeira história. Se em Leviatã as pessoas eram sufocadas pelas grandes estruturas de poder, em Sem Amor elas são destruídas por aqueles que se supõe serem seus “entes queridos”. E depois, já irremediavelmente amarguradas, destroem-se a si próprias. Que sociedade ocidental não se reconhecerá em um filme sobre solidão, maus tratos, banalidade, indiferença e egoísmo? 

Além da instigante mensagem, Sem Amor tem grandes méritos técnicos e artísticos. A fotografia, recheada de belas tomadas do gélido outono moscovita, transmite com sucesso uma sensação de paralisia e desolação. A edição de som está em perfeita sintonia com a história: violenta e nauseante. E o trabalho dos atores é uma novidade para quem está acostumado com a escola norte-americana de atuação: interrupções, ideias confusas, variações abruptas de tom. Ou seja, a linguagem como ela é na vida real. O filme é brutal e angustiante, um retrato cruel da moderna miséria humana.

A crítica política também está presente, mas de maneira mais sutil do que em Leviatã. Para informar o telespectador sobre a passagem do tempo, Zviagintsev coloca seus personagens escutando rádio e assistindo TV. As notícias escolhidas são sintomáticas da visão política do diretor. Em um determinado momento, ouvimos pelo rádio o nome de Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição liberal russa, assassinado em 2015. Ao final do filme, para indicar que haviam se passado dois anos, assistimos pela TV de um dos personagens notícias sobre a guerra civil no leste da Ucrânia, na qual a Rússia é acusada de estar envolvida.

A distância cultural e idiomática entre Brasil e Rússia, claro, gera algumas dificuldades. O título em inglês Loveless segundo o próprio Zviagintsev, não retrata perfeitamente a ideia original do filme. A palavra em português que mais se aproxima do título russo é “desamor”, que não é exatamente o mesmo que “sem amor”. Essa diferença linguística aparentemente pequena tem uma certa importância e foi motivo de comentário por parte do próprio diretor. Em entrevista ao site russo Meduza, em maio de 2017, o cineasta afirmou:

“Eu me acostumei tanto com esse nome e até passei a gostar dele porque ele é infalivelmente preciso, mostra com exatidão cirúrgica onde está o problema principal que o filme analisa: o desamor. E não se trata de simples ausência de amor, mas da sua antítese. (...) Agora estamos diante do problema de como chamar o filme no mercado francês. Os distribuidores estão quebrando a cabeça, não conseguem achar a palavra exata. E o título inglês Loveless, que se traduz como 'sem amor' também não é o ideal”.

Se é difícil encontrar uma tradução exata para o título do filme de Zviagintsev, em compensação, todo o resto em sua obra permanece perfeitamente compreensível. Infelizmente, o silêncio, o vazio e a brutalidade parecem ser, cada vez mais, uma linguagem universal.

*Henrique Canary é doutorando em literatura e cultura russa pela USP, mestre em história pela Universidade Russa da Amizade dos Povos, tradutor e professor de russo 

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