Europa Filmes
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Como os escritores testemunharam o Brasil por meio da distopia

Ignácio de Loyola Brandão, José J. Veiga e Joca Reiners Terron são alguns dos escritores que viram o País pela lente distópica

José Castello*, Especial para o Estado

21 de dezembro de 2019 | 16h00

Livros crescem com o avançar do tempo. Alguns se tornam espantosos. Já se passam quase 40 anos que Ignácio de Loyola Brandão publicou Não Verás País Nenhum (Global, 1981). O romance desenha uma impressionante distopia que antecipa, em traços medonhos, o futuro brasileiro. Lido hoje, e isso é assustador, ele não trata mais de um futuro longínquo, mas de algo muito parecido com nosso presente. As distopias guardam esse poder perverso: quanto mais o tempo passa, em vez de se dissolverem no passado, elas se agigantam e devoram a realidade. Afirmam-se não mais como pesadelos, mas como verdade. 

O romance de Loyola, que antevê um Brasil dominado pelo fascínio autoritário, pela destruição da natureza, pela legalização da violência e pela reinvenção perversa da História, traça um retrato aterrorizante de nosso futuro não mais distante e improvável, mas imediato.

Uma década antes, em plena ditadura militar, José J. Veiga publicou Sombras de Reis Barbudos (Companhia das Letras), narrativa em que a tirania e a violência se apresentam como benignas. Assim como em Não Verás País Nenhum, o presente é dominado por uma organização todo poderosa conhecida apenas como o “Esquema”. Veiga desenha um futuro em que noções de eficácia, vantagem e lucro atropelam todos os valores humanos e se impõem como única lei. Ideário que, mais uma vez, antecipa nossos tempos.

Um salto para a frente nos traz a narrativas não menos atordoantes. A Morte e o Meteoro (Todavia, 2019), novela de Joca Reiners Terron, reafirma, de modo agudo, tudo o que a ficção de Loyola anteviu. Já não estamos em nosso presente, mas dez ou vinte anos adiantados. A Amazônia está destruída. Uma última e frágil tribo indígena, sem a floresta que sempre a abrigou, e em uma operação ousada, pede asilo ao México. Os valores humanos foram jogados no lixo. O mundo se torna inóspito e a paranoia, real. Já não há mais para onde fugir. Até porque Terron vislumbra um desastre ainda maior, que destruirá todo o planeta. 

Mas a devastação não é só exterior, é também interior, como anuncia, aos calafrios, A Estética da Indiferença (Iluminuras, 2019), romance de Sidney Rocha. Em um mundo irrespirável, só nos resta sobreviver em condomínios fechados, isolados da realidade, bolhas arquitetônicas que, se trazem a sensação de segurança, geram também um indisfarçável sentimento de morte. Michi e Ana, os dois protagonistas, refugiam-se em um falso Éden, que mais se parece com a gaveta de um necrotério. Para não morrer, morrem. 

O passado e história – como hoje – já não lhes interessa mais. Escondem-se numa espécie voluntária de sonambulismo, tornam-se fantasmas ambulantes a exibir sua falsa felicidade. Em Cromane, a cidade em que vivem, “a luz é sempre teatral”. O mundo fake derrotou a realidade e tudo o que sobra é uma grande melancolia. O livro de Sidney Rocha faz uma síntese do que nos resta para viver: ou nos fingimos de vivos, ou desaparecemos. Mas isso é uma escolha?

Este mundo em que o presente é engolido pelo pesadelo já nos foi anunciado por João Gilberto Noll na novela Harmada (Companhia das Letras), de 1993. Quando o real desfalece e sobram apenas prenúncios de morte, só resta ao protagonista vaguear, perambular, saltar de um ambiente a outro – de um palco a outro, como um ator sem papel. Não mais buscando alguma coisa, porque nada mais há a buscar, e tampouco fugindo, porque não adianta mais fugir, mas só para conservar a sensação – vaga, trêmula – de existir. O outro não passa de um vulto, ou de um objeto quebrado. Afundamos na solidão.

Esse cenário de falência espiritual já se anuncia em um clássico infelizmente esquecido como Os Ratos, de Dyonélio Machado, de 1935, ou no ainda hoje estranho e quase inaceitável Noite (Companhia das Letras), relato breve e dissonante que Erico Veríssimo publicou em 1954. No romance de Dyonelio, a impossibilidade de um futuro se sintetiza em uma dívida miserável com um leiteiro. O protagonista Naziazeno, como tantos de nós hoje, vaga por uma sociedade adversa, que lhe bloqueia seus caminhos para as necessidades mais elementares e que o vê apenas como “mais um”.

Também em Noite, de Veríssimo, o protagonista, desfigurado por uma sociedade que o descartou, já não é, senão, um fantasma. Ele circula pela cidade sem ter muita certeza de seu caminho, já que tudo o que a realidade lhe oferece são traços esfumaçados e miragens inconvincentes. Nos dois relatos, agiganta-se o sentimento do vazio – que, no nosso ano de 2019, se converte em depressões, suicídios e ataques de pânico. Quando não, e cada vez mais, na violência brutal. Quando a realidade adoece, aprendemos hoje a duras penas, cada um de nós adoece também. O mal que Dyonélio e Veríssimo capturam na primeira metade do século passado se parece, cada vez mais, com o nosso mal. A distopia engole o real.

*José Castello é autor de 'Ribamar' (Bertrand Brasil)

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